domingo, 12 de outubro de 2014

Eu e meu assaltante.


Há poucos dias atrás sofri um assalto na rua em que moro. Estava voltando de uma caminhada, por volta das 18:30, com uma pequena bolsa, de onde saía um fone de ouvido. Eu ouvia música e andava de modo tranquilo, já desacelerando as passadas para chegar em casa. Eis que um rapaz aparentando 20 anos, magro, pardo (um pouco mais moreno do que eu), me abordou vindo por trás e posicionou-se ao meu lado, de modo a me “espremer” contra o muro. Disse: “vai andando, vai andando”. Custei a entender o que estava acontecendo, pensei ser algum conhecido e o olhei no rosto, buscando na memória esta identificação: traços finos, olhos castanhos, boné, casaco azul e cinza, calça comprida. Não, não o conhecia. Ele estava com as mãos no bolso e me mostrou rapidamente uma faca, que tornou a esconder depressa. Eu, já entendendo o que estava acontecendo, fui tomada por uma calma inexplicável para o momento.
 
E então páro e digo: “Calma, me diga o que você quer que eu entrego”.
 
“O celular”. Entrego, e ele me devolve o fone de ouvido. Pede dinheiro: tenho apenas 5 reais, troco da água de côco que tomei ao fim da caminhada. Ele pega o dinheiro, ordena que eu siga andando e desaparece, no sentido oposto.
Não me recordo do trajeto entre o local que fui assaltada e minha casa. Chego tremendo, sento-me no chão e choro. Muito. Quero ligar para o marido, mas não me lembro o telefone. Do fixo ligo para seu trabalho e peço que  venha logo. Com dificuldades ligo para a operadora para bloquear o número e erro meu próprio número diversas vezes. 

Tenho uma noite difícil: insone, assustada, com um cansaço e dor no corpo descomunal. Fico muito angustiada. Conto a algumas pessoas mais próximas o ocorrido e recebo as mais diversas formas de solidariedade. Muitos bradam contra o assaltante, desejam sua ruína e apelam para o reforço no policiamento do bairro.E eu, com meus pensamentos confusos, tive apenas uma única certeza: eu não tinha raiva dele. Tinha pena.
 
Pena porque vi os olhos deles tão assustados quanto o meu: porque imaginei que, depois do assalto, ele voltaria para uma vida que, provavelmente, era bem pior do que a minha. Pensei na criação que ele teria recebido, em que condições familiares teria crescido, que tipo de afeto lhe teria sido destinado. Pensei em todas as privações que este sujeito deve ter passado na vida e nas formas pelas quais acabou encontrando um meio de sobreviver num mundo que não passa a mão na cabeça de ninguém.

E então, depois da pena, senti culpa: culpa por estar do outro lado, por fazer parte de uma parcela da sociedade que frequentou boas escolas, teve uma família amorosa e uma educação humana muito forte. Nunca passei por grandes privações, sempre viajei nas férias e fiz curso de inglês e natação. E ele, com toda a certeza, não teria sido meu colega de classe. Fiquei pensando que eu gostaria de ter podido pedir desculpas a ele: desculpas por tanta desigualdade, tanta diferença, desculpas pelo abismo que nos separa.

Não estou simplesmente “defendendo bandido” ou dizendo que ele não deva pagar pelo crime que cometeu. Vivemos numa sociedade com regras e entendo que todos tenham sim que arcar com seus atos: só não consigo me enxergar apenas como a vítima indefesa e a ele como um bandido mau. Eu também posso ser a algoz ao me reconhecer do lado “mais forte” da sociedade e gozar disto e ele é também vítima de tudo isso, de um modelo de existência em que para sobreviver você tem que ter capital, não interessa como.
 
Ainda relembro a cena, diversas vezes e me sinto assustada, mas tudo isso me levou a uma certeza: eu e meu assaltante não somos tão diferentes assim. Somos vítimas e também algozes. Podemos até estar em lados distintos numa mesma sociedade, mas sofremos ambos as consequências dela. 
 

Nenhum comentário: