sábado, 6 de dezembro de 2014

4 horas *

Como dar aquilo que não se tem?

Pobre menina...a vida tem te cobrado muito, não é mesmo? Vem cá, deite-se em meu colo. Dedilharei meus dedos entre seus cabelos e todos os pensamentos ruins se afastarão. Vou cantar as mais belas cantigas de roda para embalar teu sono e contarei histórias de um tempo em que a vida era bela. Falarei sobre lendas e mistérios pouco conhecidos, você se supreenderá! Tenho certeza de que logo se verá como uma heroína dos contos de fadas ou como a princesa herdeira de um lindo castelo. Venha, venha...
Os dias tem sido difíceis, eu sei. Chegue mais perto, vou pentear seus cabelos e trançá-los com fitas coloridas, enquanto recito um poema. Você poderá admirar a beleza da lua e perceberá que tudo isso vai passar. Posso colocar em seu pescoço um belo colar, que ressaltará ainda mais a sua beleza.  Se for de seu agrado, posso dar-te brincos também, um delicado brinco de pérola. Posso colocá-los enquanto sussurro palavras bonitas em seu ouvido.

Não diga isso, não faça assim. Venha cá que eu lhe quero bem. Prometo que hoje vou só te ninar. Venha, já é madrugada, falaremos do resto amanhã, quando você acordar.  Durma, durma...

* - texto também encontrado em meu HD externo, escrito não faço ideia quando.



Devaneios capitais. *

Eu te quis desde o primeiro momento em que te vi.
Você corria contra o vento, seus cabelos estavam bagunçados, você vestia branco.
Eu tive vontade de correr atrás, mas sabia que não seria capaz de te alcançar.
Você gritava, chorava, ria, gargalhava, esbravejava.
Eu tentava captar seus sinais, entender o que você estava sentindo.
Você parecia não saber o caminho, atirava-se em qualquer direção.
Eu gritei: “É por ali!”. Tive medo de que você se perdesse.
Você não me ouviu. Te encontrei ao chão.
Eu pensei que você tivesse morrido. Te tomei em meus braços e me desesperei.

Você nada fez. Você nunca fazia nada. Você me escapava pelas mãos. Todos os dias, todas as horas.


* - texto escrito há muitos anos atrás, que encontrei "perdido" em meu HD externo.

domingo, 12 de outubro de 2014

Eu e meu assaltante.


Há poucos dias atrás sofri um assalto na rua em que moro. Estava voltando de uma caminhada, por volta das 18:30, com uma pequena bolsa, de onde saía um fone de ouvido. Eu ouvia música e andava de modo tranquilo, já desacelerando as passadas para chegar em casa. Eis que um rapaz aparentando 20 anos, magro, pardo (um pouco mais moreno do que eu), me abordou vindo por trás e posicionou-se ao meu lado, de modo a me “espremer” contra o muro. Disse: “vai andando, vai andando”. Custei a entender o que estava acontecendo, pensei ser algum conhecido e o olhei no rosto, buscando na memória esta identificação: traços finos, olhos castanhos, boné, casaco azul e cinza, calça comprida. Não, não o conhecia. Ele estava com as mãos no bolso e me mostrou rapidamente uma faca, que tornou a esconder depressa. Eu, já entendendo o que estava acontecendo, fui tomada por uma calma inexplicável para o momento.
 
E então páro e digo: “Calma, me diga o que você quer que eu entrego”.
 
“O celular”. Entrego, e ele me devolve o fone de ouvido. Pede dinheiro: tenho apenas 5 reais, troco da água de côco que tomei ao fim da caminhada. Ele pega o dinheiro, ordena que eu siga andando e desaparece, no sentido oposto.
Não me recordo do trajeto entre o local que fui assaltada e minha casa. Chego tremendo, sento-me no chão e choro. Muito. Quero ligar para o marido, mas não me lembro o telefone. Do fixo ligo para seu trabalho e peço que  venha logo. Com dificuldades ligo para a operadora para bloquear o número e erro meu próprio número diversas vezes. 

Tenho uma noite difícil: insone, assustada, com um cansaço e dor no corpo descomunal. Fico muito angustiada. Conto a algumas pessoas mais próximas o ocorrido e recebo as mais diversas formas de solidariedade. Muitos bradam contra o assaltante, desejam sua ruína e apelam para o reforço no policiamento do bairro.E eu, com meus pensamentos confusos, tive apenas uma única certeza: eu não tinha raiva dele. Tinha pena.
 
Pena porque vi os olhos deles tão assustados quanto o meu: porque imaginei que, depois do assalto, ele voltaria para uma vida que, provavelmente, era bem pior do que a minha. Pensei na criação que ele teria recebido, em que condições familiares teria crescido, que tipo de afeto lhe teria sido destinado. Pensei em todas as privações que este sujeito deve ter passado na vida e nas formas pelas quais acabou encontrando um meio de sobreviver num mundo que não passa a mão na cabeça de ninguém.

E então, depois da pena, senti culpa: culpa por estar do outro lado, por fazer parte de uma parcela da sociedade que frequentou boas escolas, teve uma família amorosa e uma educação humana muito forte. Nunca passei por grandes privações, sempre viajei nas férias e fiz curso de inglês e natação. E ele, com toda a certeza, não teria sido meu colega de classe. Fiquei pensando que eu gostaria de ter podido pedir desculpas a ele: desculpas por tanta desigualdade, tanta diferença, desculpas pelo abismo que nos separa.

Não estou simplesmente “defendendo bandido” ou dizendo que ele não deva pagar pelo crime que cometeu. Vivemos numa sociedade com regras e entendo que todos tenham sim que arcar com seus atos: só não consigo me enxergar apenas como a vítima indefesa e a ele como um bandido mau. Eu também posso ser a algoz ao me reconhecer do lado “mais forte” da sociedade e gozar disto e ele é também vítima de tudo isso, de um modelo de existência em que para sobreviver você tem que ter capital, não interessa como.
 
Ainda relembro a cena, diversas vezes e me sinto assustada, mas tudo isso me levou a uma certeza: eu e meu assaltante não somos tão diferentes assim. Somos vítimas e também algozes. Podemos até estar em lados distintos numa mesma sociedade, mas sofremos ambos as consequências dela. 
 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O que eu não fiz.

Neste final de semana estive em uma grande loja de departamentos  para comprar vasos, terra, adubo, plantas e ferramentas. Já há algum tempo nutro profundo amor pelo verde e planejava trocar algumas plantas de vaso aqui em casa. Saímos, eu e meu marido, num sábado quente para fazer tais compras. Loja cheia, mas como é bem grande, não havia um excesso de pessoas a ponto de incomodar.
Gastamos um bom tempo na seção de vasos. Escolhendo, analisando, pensando quantos precisaríamos de cada tamanho, as cores, etc. Vejo na ponta do corredor uma família engajada no movimento de tirar uma caixa grande de uma prateleira, que eu não fazia ideia do que seria. O “chefe” da família, um senhor grisalho de fala forte,  conduzia toda a ação. A retirada da caixa, no entanto, provocou um desequilíbrio em alguns vasos que estavam logo ao lado e, obviamente, todos foram ao chão.
Tudo bem, eram de plástico! Bastaria recolhê-los de volta ao lugar que tudo ficaria bem. Mas o enérgico senhor apenas olhou a cena e continuou conversando com seus familiares, com a caixa já nas mãos.
Não me aguentei. Por que será que ele não pegou os vasos que derrubou e os restaurou a antiga posição? Muito simples, pensei: porque ele está “pagando” e ali certamente tem um funcionário para fazer isso por ele.
Fui até o local, pedi: “me dá licença, por favor?”, e pus-me a recolher os vasos, um a um. O senhor não mostrou qualquer reação: seguia muito interessado em sua caixa, mas percebi claramente que entendeu o que havia acontecido.
Pois bem, família feliz dispersada, voltei para o lado do meu marido, que a esta hora escolhia adubo. Foi quando avistei, do outro lado, algumas suculentas. Fui até lá, mas no meio do caminho havia uma senhora que limpava o chão, com esses escovões enormes, que impedem a passagem. Fiquei parada, esperando-a terminar seu serviço, quando um jovem casal, mais impaciente do que eu, “pulou” a vassoura da mulher, esbarrando nela. ( o espaço era pouco). Consegui ouvi-la dizer, entre os dentes, bem baixinho: “passa por cima!”. Não parecia enfurecida, apenas triste. E seguiu sua limpeza, sem tirar os olhos do chão. (eu seria capaz de escrever um conto só sobre esta mulher...)
Fiquei com uma vontade enorme de brigar com o senhor dos vasos e de dar um abraço na moça da limpeza, e dizer: “ ei, eu tô te vendo, você não é invisível!”. Mas não fiz nada disso. Apenas parei para tomar um café , contei a história ao marido e voltamos para casa, reclamando do quão difícil é o mundo. E voltamos para o nosso mundo de plantas e outras coisas afetivas e apaziguadoras. 


(Aqui dentro de casa, o mundo é perfeito.)




terça-feira, 27 de maio de 2014

Por favor,

Eu não sei o que você faz com o seu vazio.
Mas aqui em Minas, é bem comum o tratarmos com café e pão de queijo.




(Escrito em um dia cheio, em que o momento mais apaziguador foi o balcão da padaria)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O mal que isso faz.








O que é que anda acontecendo com o mundo?
(Alguém me explica?)

(...)

Já faz um tempo em que decidi não mais ler jornais ou assistir TV. Isso me protegeu, durante muito tempo, da crueza externa. Gastava meu tempo livre lendo, vendo filmes, séries, alimentando-me de qualquer coisa que não a realidade.
Mas daí o tempo foi passando e comecei a me sentir meio alienada. Colegas de trabalho comentavam notícias de situações que eu sequer supunha que havia acontecido. A gota d´água foi a morte de uma importante personalidade nacional. Quando eu disse que nada sabia, veio a pergunta: 
"Mas Vanessa, em que mundo você vive?"
Como se fosse simples ter a resposta.... mas tentemos...
Eu vivo em um mundo de silêncio e solitário. Não que eu seja ambas as coisas...mas a minha cabeça o é. Grande parte dos meus pensamentos não são compartilhados pelo simples fato de estar certa de que quase ninguém entenderá. E eu prefiro seguir por aí olhando tudo como se achasse que é "isso mesmo" a defender minhas ideias e opiniões. Isso dá muito trabalho e desgasta e guardar tudo em mim já me consome uma energia importante.
Elocubrações a parte, achei que seria bom, vez ou outra, ler alguma coisinha e atentar mais para o cotidiano.
O problema  é quando você descobre que não há quase nada de bom por aí. Crises, escândalos políticos, mortes, fome, guerra. Meninos negros amarrados em postes, "ladrão" jogado em formigueiro, vidas humanas que não valem nada. Intolerâncias, acusações, disputas de egos... 
E eu só consigo pensar: então é esse o mundo do qual eu devo fazer parte?

Não há um só dia em que eu não pense que eu gostaria de viver em um outro mundo, um universo paralelo, um outro lugar.... onde existisse mais amor. Só. 


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Parei.

O ano "virou" e eu nem passei por aqui. E não foi por falta de vontade. Existem certas épocas em que a velocidade das coisas assumem proporções tão assustadoras, que permitir-se parar um pouco para escrever não parece algo possível.
Mas hoje eu parei.
Parei para dizer que os dias estão quentes, cheios, que a cidade continua a mesma e eu também. 
Parei para constatar que ainda que eu mude de casa e perceba que toda a minha vida cabe em várias caixinhas, nada de fato mudou.
Parei para pensar que o mundo é mesmo muito louco e que a maioria da pessoas não me parecem fazer a menor ideia do que estão fazendo com as suas vidas.
Parei para olhar pelas janelas, para espiar a casa do outro, a vida do outro, e acabei enxergando a minha própria. 
Parei para decidir o rumo a seguir e vi que não sei como se faz.
Parei para jogar muitas coisas fora e rever um tanto de outras coisas esquecidas pela vida e vi que a maioria nunca me fez falta.
Parei para sentir o vento e aprender novas direções e eu nem me perdi!


E então percebi que até mesmo quando páro, eu sigo em movimento.