terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Dias Cinzas

Amanheceu um lindo dia cinza e chuvoso em Belo Horizonte. Admirando-o do alto da minha janela, pensei o quanto paradoxal parecia o post que escrevi sobre o meu amor as cores. É verdade, gosto de cores de todos os gêneros, mas tenho apreço especial pelas mais fortes. Porém para o dia, para o céu e para as ruas eu gosto mesmo é do cinza. Dias nublados são tão lindos! Melancólicos, lentos, úmidos...não sei, mas é diferente! São dias em que tenho prazer em andar pelas ruas, captando a beleza do asfalto molhado e do reflexo que os faróis dos carros imprimem ao cenário urbano.São em dias como este que acho que a vida se faz presente, seja na chuva, no cheiro da terra molhada ou no vai e vém de pessoas que se espremem pelas marquises. É bonito ver a cidade sendo apropriada por suas "gentes", com guarda-chuvas, capas e chapéus, desviando das poças formadas pelo calçamento irregular.

E, do alto da minha janela, extasiando-me com os pingos de chuva que tocam o vidro da janela, concluo que até o cinza é bonito.
(Mas lá fora, não aqui dentro.)

domingo, 27 de janeiro de 2013

Os meninos de Santa Maria

Domingo chuvoso, preguiçoso, nublado. Destes que são os melhores, na minha opinião. Levantei-me cedo, preparei um café para o namorado que estava de saída para um plantão. Peguei meu computador, sentei-me no sofá diante da TV e pensei: "Vou dar um jeito na casa, ficar com os gatos, ver um filme..".Porém uma matéria na TV me chamou a atenção. Duzentos e quarenta e cinco jovens morreram em um incêndio numa boate em Santa Maria-RS. 
Na hora pensei na minha irmã, que acabou de ser aprovada, após muito esforço, em um processo seletivo extremamente concorrido para um curso superior. Poderia ser ela, lá, a comemorar a aprovação. A festa resultava de um encontro de alguns cursos da Universidade Federal de Santa Maria e algumas turmas foram praticamente dizimadas: houve relato de um professor que perdeu 30 alunos de uma mesma turma.
É claro que em todo momento de tragédia corremos logo para buscar os culpados. O horror não pode simplesmente existir em nós mesmos, tem que estar no outro, um outro ruim, irresponsável e que deve ser penalizado. Muito se disse sobre o vocalista da banda que se apresentava, que teria acendido um "sinalizador" no palco, causando o início do fogo. Porém ninguém foi tão culpado quanto os seguranças: estes, em tamanha perversidade, não teriam permitido a saída, com receio de que ninguém pagasse as comandas. 
Ok, os seguranças são então os culpados? Um pobre trabalhador, muitas vezes sem formação e que recebe um baixo salário com a recomendação: "não deixe ninguém sair sem pagar senão quem não recebe é você"?. A boate estava com o alvará vencido e acima da lotação permitida e a culpa é mesmo dos seguranças? Não sei, algo não me soa bem, mas sempre me lembro do velho chavão: " a corda sempre rompe do lado mais fraco". 
Uma tragédia como esta não pode mesmo ficar impune. Mas não é mediocrizando e culpabilizando aquele que pouca governabilidade teria sobre tudo isso é que a justiça pode ser feita, a meu ver. Infelizmente em nosso país normas de segurança e técnicas servem somente para ilustrar curriculuns e gerar certificados que estampam paredes. 
Para além de todo o caos, vem os "espertalhões" online que dão seu veredicto: "culpa dos jovens, que deveriam estar em casa e não na boate", dentre outras barbaridades que me recuso a aceitar que tenham sido sequer pensadas.
Você não gosta de boate? Que legal, nem eu. Acho cheio, barulhento e cansativo. Mas na juventude já fui, em muitas, várias vezes. Tudo bem que você, na sua seriedade jamais morreria numa situação como esta, mas um irmão, um parente, um amigo poderia lá estar. Ou ainda, tal negligência poderia ocorrer no seu prédio, na sua igreja, no seu trabalho. Sim, poderia. Então antes de estender o dedo e julgar quem quer que seja me parece mais sensato calar-se em respeito as vítimas. Se não há uma palavra de apoio, o silêncio é o melhor a ser feito.

**********************************************

Em uma das matérias um menino, que ajudava a socorrer outros jovens, resolveu pegar o celular que estava no bolso de uma moça, já morta, e que não parava de tocar. Quando silenciou o rapaz pôde ver: " 104 chamadas perdidas - Mãe."

(Para refletir)


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Cores de Frida, cores de Vanessa, cores.

Desde sempre gostei muito de cores. Quanto mais cor, melhor: amarelo, vermelho, azul, laranja, rosa, roxo, verde: todas as mais vastas e inimagináveis combinações sempre foram muito bem vindas. Não tenho o menor pudor em combinar- tanto em roupas quanto na minha própria casa - cores que aparentemente não combinam.
Sério, o que não combina comigo é ausência de cor! É frio, é triste, é morto. 
E assim passei toda a minha vida lidando com tons e nuances. E ponho-me sempre a observar e a procurar todas as cores do mundo: tento apreendê-las, senti-las, adoraria poder captar o aroma de cada uma delas. E imagino como haveria de cheirar o amarelo ou o azul, o roxo e o lilás...ah se eu pudesse tê-las, todas, em meus braços! 
Em um mundo imperfeito, de pessoas imperfeitas eu realmente não compreendo o que há de beleza naquilo que é tão certo, nas combinações ditas "corretas", nos traços retos, nas linhas brancas e nas paredes em tons pastéis.
O meu mundo não é feito de linhas contínuas, nem de perfeição, tampouco de sofisticação. Eu gosto mesmo é do torto, do incabível e das cores incombináveis.




terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Dia

Festa, dia, sol, gente, conversa, internet, palavras, rua, asfalto, buzinas, fumaça, sacolas, elevadores, escadas, arquivos, computadores, pastas, copos, mesas, caneta, papel, borracha, salas, gente, gente, gente, gente, calor, estátuas, cruzamentos, esquinas, bancas, lojas, caixas, gente, gente, gente, calor, perguntas, respostas, decisões, escolhas, raciocínio, calor, sol, gente, gente, gente....

Sim, viver é um ato de coragem.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O que se esvai

Eu lhe disse que não fizesse assim. Desde o início mostrei que meus sentimentos vagavam soltos pela imensidão do mundo e eu não conseguia controlá-los. Você disse que não se importava, que nada temia e esperaria pelo que viesse. Tentei dizer, mais de uma vez, que talvez eu não ficaria por aqui, a sua espera. Você insistia em não me compreender. Eu falava, cantava, gritava. Você mantinha-se sempre calmo, a me observar. Eu me exaltava e você nada dizia, nada pedia, as vezes parecia nem respirar, as vezes parecia nem estar vivo. Meus olhos inquietos procuravam o tudo, o nada; seus olhos quase sempre se fechavam. Eu chorava, você dormia, eu me angustiava e você repousava de um cansaço sem origem: você nasceu assim, cansado. Eu quis partir, você não impediu, eu quis mentir, você acreditou, eu quis morrer, você apenas olhava-me, imóvel. 
E fui embora em uma noite quente de verão. Talvez você tenha ficado até o fim da estação, talvez tenha rumado a passos lentos por outros caminhos. Não sei, nunca saberei. E se um dia me encontrar, espero que não mais me reconheça, espero seguir incógnita como um corpo cambaleante que paira pelos cantos e esquinas do mundo. Um corpo sem vida, um corpo sem alma, um corpo atormentado. Apenas mais um corpo, vazio, oco, inerte, tão morto quanto o seu. 
E eu lhe imploro, não me reconheça.

(Inspirado em M. Duras)

domingo, 6 de janeiro de 2013

Quando o amor se fez mar.

Gastava longas horas a sonhar. Tinha como hábito olhar o mar, buscando no vai e vem das ondas apaziguamento para suas dores e respostas as suas inquietações. Este amigo tão vasto parecia abraçar-lhe como se braços tivesse, de modo a envolvê-la ternamente de um modo muito particular. E era ali, diante dele, que ela se desnudava diariamente, como uma menina cheia de anseios ou uma mulher perdida em devaneios.
Para ele não guardava segredos, tampouco escondia-se algo: acreditava que o mar era capaz de ler seus pensamentos e justamente por isso buscava-o sempre a sós: temia que diante dele, outros pudessem também perceber seus sentimentos. Não que fosse uma solitária, mas entendia-se como apenas uma fagulha em um mundo enorme, em que seres pensantes vagam indiscriminadamente sem direção, ou ainda, percorrendo caminhos pré-determinados, todos os dias.
 Ela não se satisfazia em seguir pela mesma estrada e corria para o mar: com ele a possibilidade do sonho se concretizava, poderia ela ser uma bailarina ou uma mulher poderosa; poderia ser uma vendedora de rosas ou simplesmente nada. Ele nunca a questionou sobre suas incongruências e paradoxos, sempre a aceitou de qualquer forma, do modo que poderia ser. E assim, agradecida, lá ela permanecia, todos os dias, a espera do caloroso abraço do mar.
Poderia o mar se apaixonar por uma mulher? Isso ela não sabia....e não se importava em sabê-lo. Ele a confortava todos os dias, e era exatamente disso que ela precisava. 
Amores arrebatadores a deixavam cansada. O que ela queria era mesmo o amor do mar, que vai e vem, devagar, todos os dias, aos pouquinhos...