quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Batedeira sem botão.

Hoje eu te vi. Mas fiz questão de não me fazer vista. 
Você vestia camisa amarela (você sempre gostou de amarelo..), bermuda branca, chinelos. Algo na mão: talvez a carteira, as chaves do carro, um telefone celular... parecia preocupado e seguia em passos firmes. Eu caminhava pela rua, em sentido contrário: passos lentos, de quem transita sem pressa, porém meus olhos estavam ágeis. E ao te ver, pude me esconder o mais depressa que fui capaz.
Fiquei pensando se teria sido uma atitude ridícula: é, provavelmente sim. Mas quem nunca fez algo ridículo antes? E se você me perguntar o que tanto temi eu não consigo dizer: é possível que eu tenha fugido de você, de mim mesma, de um encontro inusitado, ou da vida. 
Depois que você passou, eu me sentei e tentei recobrar os sentidos e o ar. Não que você tenha tal poder inebriante,  a verdade é que muitas coisas me deixam assim: uma música de Chico, uma poesia de Vinicius, uma tela de Picasso, um filme de Godard. 
Mas hoje foi você.

(Mas foi só por hoje. )

sábado, 22 de dezembro de 2012

Breve nota sobre o quase fim do mundo

Se o calendário Maia estivesse correto, ao que tudo indica a uma hora dessas eu não mais estaria viva para escrever estas linhas. O mundo seria reduzido a pó e simplesmente morreríamos, todos. Um amigo fez piada dizendo que o próximo fim do mundo será só em 24 de abril de 2036, mas não faço ideia de qual calendário esta data segue. Tanto faz! Entra ano e sai ano e acho mesmo que uma hora tudo isso acaba, mas sem comoções extremas ou cinematográficas. Eu acredito simplesmente, que em dado momento, não haverá mais água potável no planeta e nem comida, e que morreremos por nossos próprios  meios. Bem menos dramático e poético que um apocalipse com meteoritos e tal, mas é assim que penso que será. 
Tem horas que não dá mesmo para romancear!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O pássaro



Fim de tarde, em Lavras Novas. Não pensava em sair hoje de casa, estava muito calor e um sol muito forte. Porém mais a tardinha acabei deixando a casa para uma rápida visita ao mercadinho. Logo retornei. Quando a noite se aproximava, fiquei na sala, como habitualmente o faço por aqui para ver o pôr-do-sol. O vento estava forte, anunciando a vinda de uma tempestade. Fui fechar as janelas quando, para minha surpresa, um lindo passarinho adentra pela sala, choca-se contra o vidro e cai no chão. Tento pegá-lo para levá-lo de volta a janela, mas ele foge. Percebo que está fraco, talvez machucado: mesmo com o vento forte, abro a porta da sala, de repente ele percebe a saída e se vai. Mas não, ele fica, imóvel. Pego um punhado de arroz cozido e uma vasilhinha de água e tento colocar perto dele. Neste momento ele tenta um voo mais alto e cai, de barriga para cima, olhos fechados. Pego-o na palma da minha mão e contemplo toda a beleza e fragilidade de uma criatura tão linda! Seu corpo está quente e ele respira: visivelmente não há nenhuma ferida externa. Coço sua barriga, não responde. Deixo-o delicadamente em um cantinho da sala, perto  da água e do arroz. Eis que de repente ele se agita, levanta e vai para um canto ainda mais escondido da sala. E fica lá, encolhido. Tento aproximar o máximo possível dele a água e a comida e me afasto. Céus, como eu queria entendê-lo e saber do que ele precisa, eu queria saber fazer passarinho sarar! Fiquei pensando, ainda, que passarinho não deveria morrer nunca.

(Escrito em 16/12/12, noite). 




quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Nem para pescar.


Hoje eu não saio de mim nem para pescar”. (Manoel de Barros)

Pensando nesta frase do amado poeta, conclui que estava mesmo precisando de uns dias sem sair de mim. E assim, decidi que tão logo entrasse de férias me refugiaria em Lavras Novas, um distrito de Ouro Preto, que para mim também pode ser nomeada como “um dos lugares mais perfeitos do mundo”.
Já estive aqui em outras situações, mas pela primeira vez venho só e sem urgências. Em minhas outras vindas eu andei pelas ruas do arraial, visitei mirantes e conheci restaurantes e o artesanato local. Mas agora não. Agora eu venho para parar.
E foi justamente assim que aqui cheguei. Escolhi ficar na mesma casa em que estive da última vez: uma vista espetacular das montanhas, luz, vento e uma decoração lindíssima: tudo muito vivo, tudo em cores  e muito aconchegante. É verdade que eu pensei que gostaria de caminhar sozinha por aí mas não foi o que aconteceu: eu não tive vontade. Fervi uma garrafa inteira de água para fazer chá e quis passar o dia da rede, para o sofá, para a cama, intercalando sonecas com leituras e algum filme ou série na TV, além é claro, de escrever. E me peguei em alguns momentos simplesmente parada, contemplado o horizonte ou pensando. Sim, era essa a ideia! Eu queria parar!
E nessas horas eu penso que viver assim é muito mais legal. O relógio, os compromissos, a rotina, as cobranças, tudo isso cansa demais. Eu não quero viver essa vida, eu quero é a vida de poder, ainda que vez ou outra, não sair de mim. 

(Escrito em 16/12/12)


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Estrelas


A casa ficava no alto de uma enorme ladeira: telhas vermelhas, paredes brancas, portas e janelas azuis. Muito simples, mas aos meus olhos de menina era a casa mais bonita da rua. Todo ano minha mãe me levava para visitar a tia e eu ansiava por este momento. Descia do carro com uma mala maior do que eu: levava livros, brinquedos e muitas roupas. Gostava de passear pela rua (a cidade não era mais do que uma rua) desfilando os modelitos que eu havia ganhado durante todo o ano. Nada se comparava ao prazer de receber um elogio da minha tia: “Como você está bonita!”. Eu sorria, sempre sorria como resposta. Ela penteava meus cabelos com calma, e contava-me histórias sobre a vila, sobre pessoas que já se foram e sobre o universo. Explicava-me que a cada vez que alguém morre, uma estrela no céu se apaga. E eu perguntei: “Tia, então eu também tenho uma estrela no céu, só minha?”. Ela disse que sim, e na mesma noite, apontou-me a estrela mais brilhante, dizendo que era a minha. E então, todos os dias eu esperava o cair da noite para ver a minha estrela: sim, era a mais bonita do céu.
Um dia eu voltei  e minha tia não estava lá: seus armários estavam vazios, faltavam vários objetos, a casa estava cheia de pessoas que eu não conhecia. Me disseram que ela havia partido: “foi morar no céu”. Passei a noite toda  tentando encontrá-la. Naquela noite nenhuma estrela apareceu. 

domingo, 9 de dezembro de 2012

Do sentido de tudo isso

A cada dia que passo eu tento entender o sentido de tudo. Da vida, das pessoas, da minha vida, da vida das pessoas. E quase sempre gasto horas pensando e nada concluo: se os grandes filósofos da humanidade não responderam tais perguntas, porque é que eu seria capaz de fazê-lo? A velocidade com o qual os acontecimentos da vida assume é algo avassalador, ao menos para mim. E olha que vivo na urgência! Mas nem assim consigo entender e me pego meio "abobalhada", como se tivesse levado um soco ou algo de gênero. A vida passa, as pessoas passam, tudo se esvai, cedo ou tarde. E daí? O que acontece? 
Nada.
Nada acontece.
E eu venho aqui escrever essas linhas sobre o nada. Ou tudo. Ou qualquer coisa.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Notas e fragmentos de uma quase história.


    Sinto necessidade de escrever. Não dessas escritas corretas, geniais, aptas a virar um texto clássico. Eu não sei fazer isto. Falo de uma escrita simples, despretensiosa e solta. Sem amarrações ou enredos, sem personagens ou cenários. É uma escrita caótica: palavras tecidas quase que como uma linguagem falada. A verdade é que eu utilizo a escrita como um meio de sobrevivência. Não que eu ache que domine todas as suas técnicas, muito ao contrário: é a escrita quem me domina.
  É uma relação que inciou-se desde muito cedo. As palavras sempre foram minhas companheiras mais próximas e adentrar por suas entranhas sempre foi algo bastante natural. Hoje, com os anos que se pesam em minhas costas, as palavras seguem comigo, no mesmo lugar. Elas estão em minha cabeça, em meu peito, em meus dedos, em minha boca. As vezes, ficam somente em meus olhos: nem toda palavra ousa sair. Elas são ariscas e gostam de fugir. Mas não é o que acontece na maioria das vezes: o mais comum é elas surgirem de um modo completamente aleatório e eu me esforço para dar a elas alguma ordem, algum sentido.