terça-feira, 27 de março de 2012

sexta-feira, 23 de março de 2012

Notas na porta da geladeira

Não é sempre que acontece, mas há dias em que não consigo pensar em outra coisa. Dias tristes, como os de hoje. As nuvens são um presságio de que nada está em seu devido lugar e que você não mais pode permanecer ocupando a mesma posição em mim. Não me leve a mal, apenas não mais sou capaz de enxergar algo que possa lhe oferecer, não existe no mundo o que quer que seja possível de doação neste momento. Nada tenho a dar, nada espero receber. As flores que plantei cresceram no jardim, algumas amarelaram por falta de cuidados, você não viu. Pássaros formaram ninhos em nossas árvores, mas você nunca teve tempo de atentar-se para a beleza do trabalho exercido pela natureza. Ou por mim.
Tem dias que eu só queria que você estivesse morto. 

segunda-feira, 19 de março de 2012

Outono

Outono, chegue devagar! Traga seus ventos de forma delicada, sem ferir ou bagunçar. Não se esqueça que em seus dias podemos nos extasiar com a beleza das folhas caídas e a secura dos galhos, que teimam em soltar-se da árvore mãe. Desprendem-se para morrer, engrandecendo ainda mais a paisagem urbana. A morte pode sim, ser bela. 
Outono, venha depressa! Varra as ruas, alamedas e praças com sua voracidade de vida, arranque folhas secas e jogue-as ao chão, formando lindos tapetes por onde passarei, encantada. Venha trazer a renovação, o anúncio de um novo tempo, mais ameno, porém não menos devastador. 
Outono, aproxime-se! Seja como for, compareça. Uma hora terás de partir, eu sei.
Mas por favor, ainda não se vá. 
Traga vida, morte, frio, vento, traga tudo. 
Não me poupe de nada. 
Nem da vida, nem da morte. 
Se possível, poupe-me somente dos estados letárgicos de sonolência profunda e apatia. Fora isso, não me poupe. De nada. 

sábado, 17 de março de 2012

Pensamentos de Frida

Os humanos são mesmo seres bastante curiosos! Inventam mil maneiras para se manterem conectados! Computadores, televisão, celulares, livros, jornais, etc, mas gostam mesmo é de viver isolados, em cubículos quadrados que insistem em nomear como "casa".
Aqui é assim. Vivemos eu, Zorro e minha humana em um micro-apartamento em um andar alto. Um edifício enorme, com vários outros quadradinhos acima, abaixo e a frente. Passo muitas horas no parapeito da área observando as janelinhas e vejo vários humanos solitários, cada um em seu caixotinho.
Nós gatos não somos tão estúpidos! Gostamos de viver em bandos, misturados e assim nunca nos sentimos só. Minha humana até tentou providenciar outro local para que eu e Zorro pudéssemos dormir separados, com mais conforto, mas coitada, ela não é capaz de entender que a gente gosta mesmo é de dormir junto na mesma caixa, espremidos, apertados um contra o outro. Assim a gente nunca se sente só.
Não entendo porque os humanos não fazem a mesma coisa. Ao invés de escolherem viver sozinhos em caixinhas, poderiam viver em bandos, em grupos. Certamente adoeceriam menos e acho que seriam muito mais felizes do que parecem ser.
Do meu ângulo de visão, consigo enxergar vários humanos em suas janelinhas. Lá no último andar tem um humano que vem muitas vezes a janela fumar. Nunca vi outra pessoa com ele, imagino que viva só e gaste a maior parte do seu tempo com os cigarros.
Dois andares abaixo tem uma moça que sempre aparece na janela falando em um telefone celular. Eu penso: se ela tem tanto o que falar, não seria melhor ir até o outro humano e conversar direto ?
Na janela quase em frente a minha vive um senhor, também só. Consigo vê-lo andando entre o quarto e a cozinha, o dia todo. Prá lá e prá cá, as vezes fico até zonza. Minha humana as vezes vai passear numa praça que tem aqui perto, ele bem que poderia ir andar lá.
Cada caixotinho contém um humano e suas estranhezas. Por aqui não é diferente.
Pelo menos aqui no nosso caixote tem eu e Zorro, o que deixa o ambiente menos melancólico. É até legal, temos sofá para arranhar, comida, água e uma humana de estimação.
Ela as vezes prefere ficar aqui, sozinha, com a gente, com uns  livros ou conectando-se com outros humanos através desses instrumentos esquisitos que só servem para deixar as pessoas cada vez mais distantes. 


quinta-feira, 8 de março de 2012



O dia internacional da mulher

ou

O lado de cá do abismo


Hoje cedo o taxista que me levou ao trabalho parabenizou-me pelo meu dia. Meus dois primeiros pacientes da manhã fizeram o mesmo. Ganhei uma rosa de um terceiro e recebi algumas mensagens de celular com felicitações. Na hora de pagar a conta do almoço, junto com a minha via do pagamento a débito, recebo da moça do caixa uma cartinha com um texto exaltando a mulher. Acho que nem no meu aniversário fui tão socialmente mimada.... Fiquei pensando: céus, prá que tanto? Será que ser mulher é algo assim tão especial?

Ok que a mulher dá a luz, é mãe, é acolhedora, e blábláblá. É lindo pensar na figura feminina perfeita e imaculada, mas eu realmente tenho enorme dificuldade em ver a mulher de uma forma tão clichê.(Preguiça de defender o óbvio..)  Whatever... (suspiro fundo..)

Eu sou mulher, mas não sou mãe, não sou santa, nem puta, nem melhor, nem pior do que outras, não sei se mereço rosas – corrigindo:  acho que todas as mulheres do mundo merecem rosas- e todos os homens, crianças, seres vivos, etc. Sou uma mulher comum, como tantas outras, que vive, ama, sofre, trabalha, paga contas, gosta de algumas coisas fúteis e outras nem tanto.  Sou apenas mais uma  – um ser da espécie humana do sexo feminino – que carrega consigo a dor e a delícia de ser o que é. Não entendo que haja nada demais nisso. Perco-me facilmente em uma multidão de tantas outras que habitam o mesmo mundo que eu.

(PAUSA)

Neste momento minha escrita é interrompida por um barulho de gritos e tambores vindos da rua. Colegas informam que trata-se da “Marcha das Mulheres”, promovida por mulheres sem-terra. Fico com vontade de ir até lá, mas estou em uma aula...ah, que se dane...finjo que vou ao banheiro, saio de sala e vou para a avenida...fico a observar aquelas mulheres tão sofridas, lutando, gritando, empunhando suas bandeiras, clamando por seus direitos, defendendo seus homens, seu filhos e suas vidas. Por um momento sinto um desejo imenso de juntar-me a elas, mas apenas observo, de longe... Preciso voltar...

(FIM DA PAUSA)

Volto para a sala de aula, para o segundo horário. Homens e mulheres bem formados e “cultos” discutem o lugar da psicanálise na pós-modernidade: o que nós, analistas, podemos trazer de contribuição ao debate? Acreditamos que somos capazes de mudar o mundo com a cara enfiada nos livros, sentados em cadeiras confortáveis e em uma sala com ar-condicionado, reproduzindo discursos por vezes enlatados e incompreensíveis, em um eterno festival de jargões e “semblant”, o que a pós-moderna cantora Lady Gaga chamaria de “Poker Face”.



(Ok, viajei... e nem usei nenhuma droga ilícita, juro!)

Embora apenas alguns metros separem fisicamente a sala em que assisto aula da avenida por onde desfilam as manifestantes, há um abismo intransponível que divide os dois lugares. Penso nas mulheres da marcha:  essas sim merecem prioritariamente as felicitações e rosas. Eu não. Eu escolhi o ar-condicionado e as palavras difíceis. Eu escolhi o lado de cá do abismo – e agora me esforço cotidianamente para não ser engolida por ele. 

segunda-feira, 5 de março de 2012


Mini-crônica de uma dia fantasmático

ou

O dia em que uma flauta me salvou

Após um longo e árduo dia de trabalho saí pelas ruas pensando em muitas coisas, algumas importantes, outras nem tanto. Pensei nos meus familiares, nas pessoas que amo, na rotina, nas obrigações e naquilo que gostaria de fazer e não posso, por uma série de razões. Quero, mas não dá, sei mas não entendo, conheço mas não alcanço, sinto mas não vejo. Todos os dias em que me levanto, penso que posso fazer algo a mais, transformando um dia comum em um momento único, mágico, que seja capaz de marcar toda a minha história e a das pessoas que me cercam. Um dia especial, em que sou capaz de extrapolar os limites imprecisos da fragilidade da minha existência, simplesmente humana.

A cabeça ferve, algumas dúvidas incomodam, as certezas machucam, os desejos angustiam.

Às vezes, dia sim, dia não. Às vezes, dia sim, dia sim. Quase nunca dia não, dia não.

Pela janela escuto um som de flauta e reconheço a canção Asa Branca. Ponho-me a escutar, atentamente, buscando identificar a melodia, que se confunde com buzinas, sirenes e motores de carros. Estou em uma escola de música, no centro da grande cidade, imagino que uma criança esteja, neste momento, aprendendo a dar seus primeiros passos no mundo encantado da música. Meu pensamento voa e os fantasmas somem. Só me resta o doce som da flauta, nada mais.