terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Reticências

Olá, boa noite! Eu só queria me desculpar.
Não te liguei porque achei que não havia nada que eu pudesse dizer que iria te interessar. Não liguei porque minha vida passa por caminhos pelos quais você não gostaria de transitar. Eu não te liguei porque provavelmente diria "não" a todos os seus convites e "talvez" a todos os seus questionamentos. Eu não te entenderia, você não me alcançaria. Em questão de minutos eu me tornaria um ser repulsivo e pouco atrativo a seus olhos. Carrego comigo angústias e todo um mundo que estão muito longe da sua vida. Não caibo no seu espaço, você se perderia no vazio do meu. 
Enquanto você parece buscar um ponto final,  eu sofro de reticências. 
Que a vida seja amável contigo.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Quando tudo desmorona

Ontem vi a triste notícia do desabamento de um (ou dois?) prédios no centro do Rio de Janeiro. Fiquei extremamente angustiada, pus-me a ligar para amigos e certificar-me que todos estavam bem. Ainda assim, não me tranquilizei. Senti uma coisa estranha, uma sensação de que parte de mim estava machucada e havia desabado também, junto com pilhas de vigas, concretos e pessoas que nunca vi na minha vida.
Penso primeiro, claro, nas pessoas que ali estavam e nos parentes. Num outro momento penso na cidade, no Rio, como se fosse quase que um ser com existência própria. O Rio é muito mais do que uma cidade para mim. É o lugar que me deu o que tenho de mais precioso hoje na vida: o que eu sou. Cheguei uma menina, saí uma mulher. Cheguei assustada, saí corajosa. Cheguei ávida de viver, saí vivida. Lá tudo se transformou e se hoje tornei -me esta pessoa que vos escreve, agradeço ao Rio, aos cariocas (ainda que com aquele sotaque insuportável e o fato de acharem que tem o Rei na barriga, as vezes..), aos lugares que estudei, trabalhei, circulei, existi, sofri, aprendi, amei. Aquela cidade me é tão familiar quanto os cômodos da minha casa e lá me sinto acolhida. Serei eternamente grata ao lugar que tanto fez por mim, ainda que eu tenho feito pouco, ou quase nada , por ele.
O Rio só me fez crescer, meu deu a base forte de sustentação do ser humano que me tornei. Então, quando tudo desmorona fica estranho, um vazio, algo completamente sem sentido. O Rio não foi feito para desabar, ao menos não dentro de mim.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sobre laços, cabelos e fitas de seda.

Alguns laços por vezes me parecem tão frágeis que recordam as fitas de seda que minha mãe usava para prender meus cabelos, quando  criança. Laços lindíssimos, vermelhos, cor de rosa, salmão, bege, tons pastéis. Laços de uma seda tão pura que por diversas vezes escorriam pelos meus cabelos, teimando em não se fixar. E então meus cabelos permaneciam quase sempre soltos, bagunçados pelo vento. E dia após dia os laços se perdiam. 
Talvez se eu percorresse de volta todos os caminhos que fiz poderia encontrar minhas fitas de seda caídas por aí, nas calçadas, esquinas, ruas e jardins. Seria uma tarefa sem fim, uma vez que continuo perdendo outras, as vezes mais de uma no mesmo dia. 
Eu não nasci para ter fitas de seda nos cabelos. Elas se desfazem de mim . 


domingo, 22 de janeiro de 2012

A espera

Aguardava-o em uma praça. Ansiava pelo momento em que encontraria aquele que seria seu salvador em uma noite angustiante. Imaginava como seria o encontro, o que diriam um ao outro: "oi, como você está?", "e aí, o que tem feito?", "e as novidades?".... não, tudo parecia raso demais. Escolhera com cuidado o que vestir: não queria demonstrar desleixo, mas também não tinha a intenção de ser formal, algo simples e que não assustasse sua companhia. Vestiu-se então com jeans, camiseta e sandálias. " e se ele não gostasse?"...interrogações das mais variadas ordens pulsavam como feixes luminosos em sua cabeça. Engolia em seco uma saliva que era incapaz de produzir, esfregava as mãos, olhava para os lados. Ele estava atrasado. Olhava o relógio. O trânsito, certamente o trânsito. Ou alguma urgência. Talvez os compromissos do dia ainda não tivessem sido finalizados. Quem sabe um imprevisto qualquer, desses que acontecem com todo mundo, todos os dias? Algo muito, muito natural. Enquanto pensava, caminhava pela praça, a procura, a espera.
Os segundos somavam-se em minutos e onde ele estaria? Tudo parecia se mover em uma velocidade drástica, tudo parecia acontecer de forma veloz, mas ele não chegava. O tempo passava, ele não aparecia. Nem sinal, nem vestígio. Nada. Simplesmente o vazio.
Por mais que tentasse buscar explicações que pudessem justificar a ausência nada mais fazia sentido ou se encaixava. Ele não veio porque não veio. Porque não quis, porque conseguiu um programa melhor. Ele não veio porque na vida nem tudo é passível de explicação. O mundo segue a girar, as crianças continuam correndo pela praça, casais namoram nos bancos, amigos se divertem pelo gramado, senhoras passeiam com seus cachorrinhos. E ele não veio. O comércio do entorno já fechou as portas, amanhã tudo reabre, amanhã tem mais. Fiéis seguem para a Igreja, fazem suas orações, mas amanhã tem mais. Sempre existe mais, o mundo segue a girar, pessoas estão por todos os lados, casais namoram nos bancos, velhinhas passeiam com cachorros, pipoqueiro, policial, criança. No dia seguinte o pão quente sairá no mesmo horário e o jornaleiro abrirá sua banca anunciando as principais manchetes. Carteiros percorrerão as ruas trazendo as correspondências, catadores de papel varrerão a cidade em busca de material reciclável e milhares e milhares de almas transitarão por todos os espaços, formando um emaranhado de seres que vagam solitários pela metrópole.
E ali, sozinho naquela praça escura, deu-se conta de que era só mais um no mundo. Talvez um só mais solitário que os demais.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Quando as palavras faltam.

Sou capaz de descrever muitas coisas. Bicho, planta, cor, sabor, aroma, gente. Sou capaz de identificar aspectos que na maioria das vezes passam batido no cotidiano. Aprendi a classificar lugares, experiências, temáticas e mais uma série de características deste mundo que habito. Sei empilhar, recortar, agrupar, separar, colar, remendar. Consigo nomear quase tudo e aquilo que não sei o nome, pesquiso ou invento. 
Mas de certas coisas não entendo. Não sei nomear, tampouco explicar,  faltam palavras. 
E acho difícil que um dicionário possa me ajudar. 


ps: lembrei-me das sopas de letrinhas que eu tomava quando criança... 

ps2: talvez uma sopa de letrinhas numa noite fria possa me ajudar mais que o dicionário...

ps3: aonde encontro uma sopa de letrinhas?

ps4: esqueça. deita e durma, amanhã é um novo dia.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Notas sobre a humanidade.

Sombras, vultos, borrões, lampejos luminosos que se deslocam num ritmo voraz, incapaz de qualquer apreensão. Pessoas correm todos os dias e, na maioria das vezes, nem sabe para onde vão. Repetem todos os dias os mesmos afazeres de forma automática, num ciclo sem fim, de repetição e morte. Um ciclo de mediocridade e tédio. Gastam horas a fio em intermináveis discussões sobre o tudo e o nada que inevitavelmente não levará a lugar algum. Vivem como cachorros que correm atrás do próprio rabo, sem se dar conta de que viver é muito, muito mais do que apreender o que está próximo ao umbigo.
Humanos, humanos....
(......)

Se a reencarnação de fato existe, aonde me inscrevo para vir bicho na próxima ?



segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Barulhinho.

Não tinha muitos sonhos próprios. Dedicara a maior parte de sua vida a satisfazer os desejos dos que amava e entendia que, deste modo, estaria também atendendo aos seus desejos. Descobriu, talvez um pouco tarde, que ver o outro feliz não necessariamente implicaria em sê-lo também. Nutria um genuíno desejo de fazer a diferença na vida de todas as pessoas que cruzavam seu caminho e empenhava-se com muito afinco em sair da vida delas, deixando algo de bom.
Porém, um belo dia, percebeu que a vida não era lá tão fácil. Ainda que tentasse amar de forma inequívoca e afagar a todos que estavam a sua volta, viu-se diante de momentos em que as pessoas simplesmente partiam sem nada levar. Uma carta, um bilhete, um poema, uma lembrança de amor. Nada era levado. Tudo permanecia no mesmo lugar, como se esquecido ou talvez deixado propositalmente: na escrivaninha, na gaveta do criado-mudo, na lata do lixo. Lá ficavam todos os resquícios daquilo que um dia fora partilhado com tanto afeto.
Então ela esvaziava tudo e recomeçava do zero. Precisava de espaço para os novos fragmentos que construía dia a dia, embora não fizesse a menor idéia do que fazer com eles. Se conseguisse achar um ângulo perfeito contra uma corrente de vento seria capaz de provocar um barulhinho gostoso no vazio em seu peito. E ela gostava de barulhinhos.