quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Batedeira sem botão.

Hoje eu te vi. Mas fiz questão de não me fazer vista. 
Você vestia camisa amarela (você sempre gostou de amarelo..), bermuda branca, chinelos. Algo na mão: talvez a carteira, as chaves do carro, um telefone celular... parecia preocupado e seguia em passos firmes. Eu caminhava pela rua, em sentido contrário: passos lentos, de quem transita sem pressa, porém meus olhos estavam ágeis. E ao te ver, pude me esconder o mais depressa que fui capaz.
Fiquei pensando se teria sido uma atitude ridícula: é, provavelmente sim. Mas quem nunca fez algo ridículo antes? E se você me perguntar o que tanto temi eu não consigo dizer: é possível que eu tenha fugido de você, de mim mesma, de um encontro inusitado, ou da vida. 
Depois que você passou, eu me sentei e tentei recobrar os sentidos e o ar. Não que você tenha tal poder inebriante,  a verdade é que muitas coisas me deixam assim: uma música de Chico, uma poesia de Vinicius, uma tela de Picasso, um filme de Godard. 
Mas hoje foi você.

(Mas foi só por hoje. )

sábado, 22 de dezembro de 2012

Breve nota sobre o quase fim do mundo

Se o calendário Maia estivesse correto, ao que tudo indica a uma hora dessas eu não mais estaria viva para escrever estas linhas. O mundo seria reduzido a pó e simplesmente morreríamos, todos. Um amigo fez piada dizendo que o próximo fim do mundo será só em 24 de abril de 2036, mas não faço ideia de qual calendário esta data segue. Tanto faz! Entra ano e sai ano e acho mesmo que uma hora tudo isso acaba, mas sem comoções extremas ou cinematográficas. Eu acredito simplesmente, que em dado momento, não haverá mais água potável no planeta e nem comida, e que morreremos por nossos próprios  meios. Bem menos dramático e poético que um apocalipse com meteoritos e tal, mas é assim que penso que será. 
Tem horas que não dá mesmo para romancear!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O pássaro



Fim de tarde, em Lavras Novas. Não pensava em sair hoje de casa, estava muito calor e um sol muito forte. Porém mais a tardinha acabei deixando a casa para uma rápida visita ao mercadinho. Logo retornei. Quando a noite se aproximava, fiquei na sala, como habitualmente o faço por aqui para ver o pôr-do-sol. O vento estava forte, anunciando a vinda de uma tempestade. Fui fechar as janelas quando, para minha surpresa, um lindo passarinho adentra pela sala, choca-se contra o vidro e cai no chão. Tento pegá-lo para levá-lo de volta a janela, mas ele foge. Percebo que está fraco, talvez machucado: mesmo com o vento forte, abro a porta da sala, de repente ele percebe a saída e se vai. Mas não, ele fica, imóvel. Pego um punhado de arroz cozido e uma vasilhinha de água e tento colocar perto dele. Neste momento ele tenta um voo mais alto e cai, de barriga para cima, olhos fechados. Pego-o na palma da minha mão e contemplo toda a beleza e fragilidade de uma criatura tão linda! Seu corpo está quente e ele respira: visivelmente não há nenhuma ferida externa. Coço sua barriga, não responde. Deixo-o delicadamente em um cantinho da sala, perto  da água e do arroz. Eis que de repente ele se agita, levanta e vai para um canto ainda mais escondido da sala. E fica lá, encolhido. Tento aproximar o máximo possível dele a água e a comida e me afasto. Céus, como eu queria entendê-lo e saber do que ele precisa, eu queria saber fazer passarinho sarar! Fiquei pensando, ainda, que passarinho não deveria morrer nunca.

(Escrito em 16/12/12, noite). 




quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Nem para pescar.


Hoje eu não saio de mim nem para pescar”. (Manoel de Barros)

Pensando nesta frase do amado poeta, conclui que estava mesmo precisando de uns dias sem sair de mim. E assim, decidi que tão logo entrasse de férias me refugiaria em Lavras Novas, um distrito de Ouro Preto, que para mim também pode ser nomeada como “um dos lugares mais perfeitos do mundo”.
Já estive aqui em outras situações, mas pela primeira vez venho só e sem urgências. Em minhas outras vindas eu andei pelas ruas do arraial, visitei mirantes e conheci restaurantes e o artesanato local. Mas agora não. Agora eu venho para parar.
E foi justamente assim que aqui cheguei. Escolhi ficar na mesma casa em que estive da última vez: uma vista espetacular das montanhas, luz, vento e uma decoração lindíssima: tudo muito vivo, tudo em cores  e muito aconchegante. É verdade que eu pensei que gostaria de caminhar sozinha por aí mas não foi o que aconteceu: eu não tive vontade. Fervi uma garrafa inteira de água para fazer chá e quis passar o dia da rede, para o sofá, para a cama, intercalando sonecas com leituras e algum filme ou série na TV, além é claro, de escrever. E me peguei em alguns momentos simplesmente parada, contemplado o horizonte ou pensando. Sim, era essa a ideia! Eu queria parar!
E nessas horas eu penso que viver assim é muito mais legal. O relógio, os compromissos, a rotina, as cobranças, tudo isso cansa demais. Eu não quero viver essa vida, eu quero é a vida de poder, ainda que vez ou outra, não sair de mim. 

(Escrito em 16/12/12)


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Estrelas


A casa ficava no alto de uma enorme ladeira: telhas vermelhas, paredes brancas, portas e janelas azuis. Muito simples, mas aos meus olhos de menina era a casa mais bonita da rua. Todo ano minha mãe me levava para visitar a tia e eu ansiava por este momento. Descia do carro com uma mala maior do que eu: levava livros, brinquedos e muitas roupas. Gostava de passear pela rua (a cidade não era mais do que uma rua) desfilando os modelitos que eu havia ganhado durante todo o ano. Nada se comparava ao prazer de receber um elogio da minha tia: “Como você está bonita!”. Eu sorria, sempre sorria como resposta. Ela penteava meus cabelos com calma, e contava-me histórias sobre a vila, sobre pessoas que já se foram e sobre o universo. Explicava-me que a cada vez que alguém morre, uma estrela no céu se apaga. E eu perguntei: “Tia, então eu também tenho uma estrela no céu, só minha?”. Ela disse que sim, e na mesma noite, apontou-me a estrela mais brilhante, dizendo que era a minha. E então, todos os dias eu esperava o cair da noite para ver a minha estrela: sim, era a mais bonita do céu.
Um dia eu voltei  e minha tia não estava lá: seus armários estavam vazios, faltavam vários objetos, a casa estava cheia de pessoas que eu não conhecia. Me disseram que ela havia partido: “foi morar no céu”. Passei a noite toda  tentando encontrá-la. Naquela noite nenhuma estrela apareceu. 

domingo, 9 de dezembro de 2012

Do sentido de tudo isso

A cada dia que passo eu tento entender o sentido de tudo. Da vida, das pessoas, da minha vida, da vida das pessoas. E quase sempre gasto horas pensando e nada concluo: se os grandes filósofos da humanidade não responderam tais perguntas, porque é que eu seria capaz de fazê-lo? A velocidade com o qual os acontecimentos da vida assume é algo avassalador, ao menos para mim. E olha que vivo na urgência! Mas nem assim consigo entender e me pego meio "abobalhada", como se tivesse levado um soco ou algo de gênero. A vida passa, as pessoas passam, tudo se esvai, cedo ou tarde. E daí? O que acontece? 
Nada.
Nada acontece.
E eu venho aqui escrever essas linhas sobre o nada. Ou tudo. Ou qualquer coisa.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Notas e fragmentos de uma quase história.


    Sinto necessidade de escrever. Não dessas escritas corretas, geniais, aptas a virar um texto clássico. Eu não sei fazer isto. Falo de uma escrita simples, despretensiosa e solta. Sem amarrações ou enredos, sem personagens ou cenários. É uma escrita caótica: palavras tecidas quase que como uma linguagem falada. A verdade é que eu utilizo a escrita como um meio de sobrevivência. Não que eu ache que domine todas as suas técnicas, muito ao contrário: é a escrita quem me domina.
  É uma relação que inciou-se desde muito cedo. As palavras sempre foram minhas companheiras mais próximas e adentrar por suas entranhas sempre foi algo bastante natural. Hoje, com os anos que se pesam em minhas costas, as palavras seguem comigo, no mesmo lugar. Elas estão em minha cabeça, em meu peito, em meus dedos, em minha boca. As vezes, ficam somente em meus olhos: nem toda palavra ousa sair. Elas são ariscas e gostam de fugir. Mas não é o que acontece na maioria das vezes: o mais comum é elas surgirem de um modo completamente aleatório e eu me esforço para dar a elas alguma ordem, algum sentido. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O menino de lá

Há muito que não o encontrava. Depois de tantos anos descobri que ele ainda era o mesmo menino: idealista, cabeludo, sonhador. Embora tudo o levasse para bem distante, como aconteceu, havia algo ali que era muito fácil de reconhecer. Perguntei se ainda lembrava de mim. Um sorriso se abriu: "Claro que me lembro de você..." . Eu me recordava de cada canção, cada gesto e palavra dita, porém sem execução. Tudo ficou parado, no tempo, no espaço, na vida. Hoje o homem, diante de mim, nada mais sabia da menina que ficou lá atrás, na porta da escola. Tranças no cabelo, mochila nas costas, sapatos de fivela e olhos vívidos a espiá-lo. Eu o espiava, e ele a mim. Perdidos na vasta imensidão do mundo que nos devora e nos transforma em adultos, nos deixamos. E nos reencontramos, muitos anos após: sem músicas, sem tranças, sem palavras. Apenas um sorriso. 

"Se eu te disser que eu fiz o meu melhor, você vai acreditar?"





segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Hoje

Entro em casa, correndo. Tranco a porta, atiro a bolsa ao sofá. Olho meus gatos e venho para o quarto. Troco minha roupa e deito, debaixo do edredom. Assim permaneço por um bom tempo. Meus gatos se aproximam e aninham-se, um de cada lado. Eles me esquentam: faz calor, mas está agradável. Adormeço. Desperto com o celular tocando, não o atendo. Coloco a campainha no modo silencioso e cubro a cabeça novamente. Mais uma vez, adormeço. Desta vez acordo sozinha, noto que já anoiteceu. Escuto o interfone tocar, mas é no vizinho. Respiro aliviada: não é comigo, não é para mim. Hoje eu posso só silenciar.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Era uma vez ela.

Dizem que ela já nasceu assim.
Desde muito cedo cantava para atrair os pássaros e conseguia mudar o rumo do vento. Quando estava feliz um belo sol de abria. Em dias mais tristes, as nuvens pareciam chorar por ela. A questão é que ninguém notava sua conexão com os elementos naturais: sempre viveu ali, sempre foi assim, não haveria o porque de algo ser questionado.
Tinha o corpo coberto por pintas, dos mais variados formatos e tons: manchas marrons,  pretas, grandes e pequenas. E conseguia prever o futuro por elas. Essas marcas que a davam um caráter totalmente singular, moviam-se em seu corpo e as pintas se misturavam, conforme o rumo que as coisas tomavam.
Todos os dias, pela manhã, despia-se diante do espelho e observava as pintas. Procurava-as, uma a uma e respirava aliviada quando precebiam que estavam todas em seu devido lugar. Qualquer alteração poderia significar que algo bom não estava por vir.
Até que aconteceu o dia em que todas as pintas desapareceram. Olhou cuidadosamente cada curva de seu corpo, buscando um local para onde pudessem ter migrado. Mas nada. Simplesmente haviam desaparecido. Naquele dia não fez sol, nem chuva. Nada aconteceu.
E foi então, que pôde enfim, descansar.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Carta a uma menina do interior.

Querida M. J,

Entendo perfeitamente quando diz que não se acostuma fácil com a vida na cidade grande. Sua terra, com seus parcos 30 mil habitantes lhe provém a segurança e calor necessários para que não tenha medo de nada. Está perto de seus pais, amigos, conhece cada rua e esquina como se fossem a sua própria casa. Aprendeu a sentir o "cheiro" do vento e sabe dizer com precisão se irá ou não chover. Pode usar tua medalha de ouro com o divino espírito santo sem medo de a tomarem de ti. 
E agora, por ocasiões da vida, vê-se obrigada a morar em uma cidade maior. Precisa prosseguir com os estudos, precisa encher de orgulho sua família e devolver a eles todo o investimento de tantos anos. Eu sei M.J, isso assusta. Deixar para trás tudo o que há de mais certo em sua vida e lançar-se rumo ao imprevisível é assim mesmo. Mas acredite em mim, tem dia que dói, tem dia que você nem nota. E é justamente nestes dias mais sofridos que você crescerá mais. E com certeza, não retornará a tua cidade do mesmo tamanho que saiu. Você já é muito maior M. J. , só que ainda não percebe. Nem todo o mundo caberia em ti. Dos teus poucos anos, você já é muito mais do que muita gente sonhou ser.
Que a cidade grande não a intimide. Dominá-la é para muitos. Escutar o vento, para poucos. 
Com carinho,
Vanessa.


terça-feira, 16 de outubro de 2012

A falta que isso faz.

Andei um tempo fora. Mas resolvi vir hoje aqui, só para "espiar". Reli alguns textos, li outros blogs e senti vontade de vir aqui mais vezes. Pode ser que o faça, em breve. Pode ser que acabe me perdendo por outros cantos, mas como aquele final de filme previsível, eu sempre volto. 
Eu saio, ando por aí, por aqui, me perco, dou voltas e as vezes não sei como retornar. Mas uma hora, ainda que leve algum tempo, eu  volto. Eu e milhares de pessoas, que vão e vem, nas horas, nos dias, na vida. 

Esperando bater um ventinho mais forte que me traga para cá. Ou que me leve para qualquer outro lugar. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Dos desejos

Eis que chega a hora de desejar. Algo que ao mesmo tempo, dá gozo e assusta. Coisas dessas que você quer mas não sabe se deve, se é capaz, se é hora. Aliás, qual a hora certa de se realizar um desejo?
Eu não sei, mas  poucas vezes na vida esperei muito tempo para realizar algum.
E no processo de sair da hibernação que vivi nas últimas semanas, permito-me desejar. Mas é um desejo ainda frouxo, sem dimensão concreta, como um vulto, um assombro, algo que paira no ar. É volúvel, mas não frágil. Ao contrário, é um desejo arrebatador, que vem dos mais profundos espaços perdidos em mim.
É meu, é só meu, é todo meu. 
Ainda não sei exatamente o que fazer com ele, mas graças a este desejo tão relevante, eu sei que eu estou viva.

sábado, 30 de junho de 2012

Os atendentes do Mc' Donalds também amam.


Uma noite dessas estava eu perambulando pelas ruas do centro. Eis que noto um casal, ambos com o uniforme do Mc' Donalds. Ela, sentada em uma mureta, encostada apoiando-se na parede de um edifício comercial. Ele, deitado com a cabeça no colo dela, com o boné nas mãos. As pessoas na rua passavam apressadas e pareciam não notá-los - de fato o casal estava em um canto escuro, não era tão fácil percebê-los. Mas não sei ao certo porque, eu os notei. Sentei em um banco próximo para observá-los. Pareciam cansados, imaginei que tivessem servido batatas-fritas em uma velocidade alucinante o dia todo. Ele quase que dormia com os afagos dela, mas estava atento ao que ela lhe dizia. Ela o olhava, de forma muito carinhosa e falava bem próximo ao ouvido dele, curvando-se bastante para tal. 
(Palavras de amor, presumi.)
Foi só mais uma cena banal , que parece ter pouca importância: dois trabalhadores que se juntam ao final de um dia para se amarem, para compartilharem algum tempo juntos, numa noite fria, em um dos pontos mais centrais e movimentados da cidade. Enquanto carros e pessoas corriam por todos os lados, eles não pareciam ter a menor pressa. 
Achei a cena bonita e curiosa. Peguei-me pensando que até mesmo os atendentes do Mc' Donalds amam. 
Ah se todo o mundo pudesse aplaudir aquela cena.....
(Eu aplaudi, mas o fiz silenciosamente.)
E segui meu caminho, pensando que o amor é mesmo um "trem" muito bonito.


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Aonde eu termino, começa você.

Quando me permito desaparecer é que consigo te enxergar. Nos cantos, nas esquinas, numa letra de música. É ali, nas horas silenciosas, no escuro da sala, no tic-tac do relógio que consigo lhe ver. Ou somente sentir, tanto faz. É no vazio dos segundos e no ardor da ânsia da ausência que sei que você está aqui. Quando o vento sopra as cinzas e as folhas secas caem ao chão eu te percebo. Quando escuto um grito, ao longe, que sequer vem em minha direção eu posso quase te tocar. Nas madrugadas eu fecho os olhos e consigo atravessar o profundo dos teus.
 Aonde eu termino, começa você. 

domingo, 24 de junho de 2012

Palavras de domingo

Eu deveria estar escrevendo agora, tenho uma série de textos a entregar (acadêmicos). Mas estou aqui, escrevendo sobre o nada, sobre qualquer coisa. E cogitando seriamente a possibilidade de voltar para a cama.
Não trata-se de um problema grave ou qualquer rejeição a tarefa que a mim foi destinada. É só um certo cansaço mesmo. Vontade de utilizar o tempo com coisas mais minhas e menos dos outros, vontade de me desfazer de regras e protocolos. E daí penso que tenho tanta coisa ainda por fazer, mas ao mesmo tempo, tenho que me curtir, "me viver". Senão a vida passa, eu cumpro uma série de etapas pré-concebidas, mas não mais me reconhecerei como parte disto.
Eu não preciso me encontrar, eu ainda não me perdi. Só preciso cuidar para que eu esteja aqui, todos os dias. E que eu escreva quando tiver o desejo de fazê-lo, e não por obrigação. 
Assim como parei tudo e vim até aqui, escrever estas palavras. 
Assim como vou voltar para a cama. 
O resto pode esperar. 
Eu não posso. 

terça-feira, 19 de junho de 2012

Sobre mulheres e mulheres - Parte 2.

Ontem logo depois de escrever pus-me a pensar na pergunta: "Que raios de mulher eu sou?"
Já me angustiei inúmeras vezes ao pensar que não sou daquelas que defendem bandeiras ou lutam por seus direitos. Não sou filiada a nada, nem entendo deste tipo de coisa. Sou uma autêntica alienada e o mais grave, por opção.

Teve uma época da minha vida em que eu decidi que não mais assistiria noticiários na TV. Só notícia ruim! Preferia utilizar este tempo com um filme, sonhando, lendo ou fazendo qualquer outra coisa que me tirasse da realidade. Aos poucos a coisa foi se agravando e eu parei também de ler jornais e revistas especializadas. Perdi a vontade, não tenho interesse, não gosto, acho tedioso. O mundo é cansativo e eu não preciso saber disso informando-me mais ainda sobre o que eu já sei: alguma guerra em algum canto do planeta, assassinatos, violação aos direitos humanos, corrupção, crise política, algum time ganhou, outro perdeu, alguém famoso que morreu ou está no hospital e ao final, uma notícia de esperança qualquer.  Já conheço o roteiro, sei como é. Não tenho necessidade disso todo dia, definitivamente. Por isso é tão comum as pessoas ficarem estarrecidas quando não sei fatos do cotidiano do mundo. 

Dentro de todo essa mafuá de ideias alienadas, tentei então encontrar-me. E, pensando, concluí que eu não nasci mesmo para nada grandioso. Eu não sei mudar o mundo, nem pretendo fazê-lo. Não nasci para movimentos bruscos, nem para revoluções. Não viveria na anarquia, nem nunca me aproximaria de política ou qualquer outra coisa que se assemelhe. O que eu gosto mesmo, e sei fazer, é tentar mudar a vida de "poucas gentes". Eu gosto é do um a um, de cada sujeito, de cada massa corpórea que vaga por aí, pela vida. Seres que são tão diferentes entre si e carregam sofrimentos tão parecidos, ou não. Eu gosto é de tocá-los, seja como for, seja como der. E se uma palavra ou gesto meu puder trazer um pouco de alívio eu  sinto que já fiz minha revolução. 

E eu faço várias revoluções, todos os dias. Só que ninguém vê. Ela não é noticiada na TV, nem nos jornais, tampouco ganha as ruas em forma de passeata.

"A pessoa é para o que nasce", já dizia o título de um documentário sobre três irmãs cegas. Pois é. Eu nasci para coisas bem pequenas, etéreas e não palpáveis. Eu nasci para o invisível. 


segunda-feira, 18 de junho de 2012

Sobre mulheres e mulheres.

Acabei de ver na TV uma matéria sobre a Marcha Mundial das Mulheres no contexto do evento Rio+20.
Meninas, jovens e senhoras dando depoimentos sobre a causa. Uma delas, uma idosa aparentemente já bastante cansada, disse que veio do Rio Grande do Norte só para participar do evento.
E neste exato momento, estava eu, sentada no sofá, com uma taça de vinho na mão.

E volta a velha questão: que raios de mulher sou eu?

Eu posso até ter senso crítico e parar para pensar sobre, mas e daí? O que eu faço com isso? 

Por mais que eu as admire, por mais que ache a causa nobre, eu nunca serei como elas. Não porque eu não seja capaz (eu acho), mas pelo simples fato de que eu não quero. Na matéria uma autoridade importante (que nem imagino quem seja) pedia mais espaço na política e economia para as mulheres. E eu pensei: eu nem sei se quero isso. Eu nem sei o que faria com isso. Eu não entendo nada disso, nem quero entender, isso tudo é muito chato....

Por ora eu só queria achar mais horas no meu dia para viver coisinhas pequenas! Detalhes tão irrelevantes para o mundo, mas tão cruciais para mim! (cozinhar, plantar, pintar, dançar, ler, escrever, passear na praça, brincar com meus gatos, ficar com os amigos, com os familiares, com todos os que amo, assar um bolo, ir ao cinema no meio da tarde, passar café todos os dias, balançar na rede empurrando-a com os pés contra a parede, etc e etc.....)

Sim, eu admiro e respeito profundamente todas as mulheres que querem e vão mudar o mundo. Mas eu não sou uma delas. Sou apenas aquela figurante que passa pela calçada, observando. E corre para casa, em seguida, para degustar um vinho e pensar no quanto o mundo é um lugar complicado.


quinta-feira, 14 de junho de 2012

Como planejar o futuro, por uma adulta.

Li por aí que a noite do reveillon ditará como será o resto do ano. Pois bem, este ano estou super hiper mega afim de me presentear com um reveillon muito foda, FORA de BH.

Daí como boa crente que sou ( :P)  resolvi fazer a contabilidade dos meus últimos reveillons e analisar como se deu o ano seguinte. Assim, dependendo da "tabelinha" será possível tentar prever o melhor destino para a virada de 2012-2013

Voilá!



2002-2003
Aonde: Rio de Janeiro, Praia do Recreio. (Joguei palmas para Iemanjá)
Como foi o ano de 2003: Um saco. Faculdade apertando, eu já sem a menor paciência. Iemanjá não é a melhor divindade, isso é certo!

2003-2004:
Aonde: ?????
Como foi o ano de 2004: Um ano lindo! Eu formei, finalmente!  Adiós UFJF!!!!

2004-2005
Aonde: Juiz de Fora, cobertura de amigos, festa para 05 pessoas. (Sim, cinco!!!!). Cantei Madonna e Cindy Lauper no videokê como se não houvesse amanhã!
Como foi o ano de 2005: Um dos anos mais lindos! Mudança para o Rio! Fiocruz! Praia, calçadão, ziriguidum!

2005-2006
Aonde: Rio de Janeiro, com uma penca de gente, não me lembro o nome de seis.
Como foi o ano de 2006: FODA! Entrada no Mestrado e a descoberta de que o Rio era bem mais que turismo! Lapa, arpoador, becos, esquinas e gente estranha!

2006-2007
Aonde: Juiz de Fora. com um povo. (Acho que cantamos "we are the champions" na virada)
Como foi o ano de 2007: Um ano muito louco. Amigos para uma vida, novos caminhos, aprendizados, cortes, definições. (2007, eu me orgulho de você!!!)

2007-2008
Aonde: Juiz de Fora, com  mãe e irmã, na janela de casa, vendo os fogos no morro do cristo e tomando champagne vagabunda.
Como foi o ano de 2008: Trágico. Mudança repentina para BH. "Perdida na selva"

2008-2009
Aonde: BH
Como foi o ano de 2009: Pior que 2008

2009-2010
Aonde: BH
Como foi o ano de 2010: Menos pior que 2009

2010-2011
Aonde: BH
Como foi o ano de 2011: Pior do que todos os outros em BH, exceto o 2009.

Depois do "apanhado", consegui tirar as seguintes conclusões:

1) Juiz de Fora é curinga. Reveillon lá pode significar um ano imprevisível. Tô ficando velha e querendo mais previsibilidade na vida!

2) Rio é pé quente, o negócio é não jogar nada para Iemanjá! (N-A-D-A)

3) BH é fria. (Como este ano foi na "Grande BH" ainda não dá prá saber)

4) Nunca tomar champagne vagabunda. Zica na certa!


Agora tô avaliando se é o caso de "incrementar" minha análise histórica com um mapa-astral ou visita a algum pai de santo.Agora tenho 31 anos e acho que é hora de ser mais adulta e pensar no futuro!





terça-feira, 12 de junho de 2012

É big, é big...é hora, rá, tim, bum!



Sim, é hoje meu aniversário! E mesmo quase sempre sendo uma pessoa mais aborrecida, neste dia costumo ficar "mansa". E na hora do "vamo ver" eu até gosto!


Hoje eu quero bolo, abraços, velas para soprar!
Quero comemorar e viver! 
E eu escolhi o tema deste dia:




"Pode falar que eu não ligo,Agora, amigo,Eu tô em outra,Eu tô ficando velha,Eu tô ficando louca.

Pode avisar qu'eu não vou,Oh oh oh...Eu tô na estrada,Eu nunca sei da hora,Eu nunca sei de nada.

Nem vem tirarMeu riso frouxo com algum conselhoQue hoje eu passei batom vermelho,Eu tenho tido a alegria como domEm cada canto eu vejo o lado bom."











Parabéns prá mim!
:-)



sexta-feira, 8 de junho de 2012

Aos 31

Há um ano atrás eu fiz um post falando das minhas frustrações ou sei lá o quê com a chegada dos 30. Para não cair na mesmice e agora, aos quase 31, utilizar mais um post esbravejando contra o mundo e mimimi, decidi fazer diferente. Desta vez vou simplesmente agradecer a Deus tudo o que conquistei nestes 31 anos de vida, agradecer todas as alegrias e coisas lindas.....(blablabla whiskas sachê)

(Rará!!!!! Mentirinha!!!!)

Não, não vou agradecer nada. Se eu conquistei qualquer coisa foi por mérito próprio, porque ralei e ralo horrores e porque soube lidar - ainda que com muita dificuldade - com todos os desvairios que este mundo insano me impôs. Porque consegui acordar a cada dia e ainda que , por vezes, querendo matar ou morrer, achar algum mísero sentido na vida. Porque sou uma pessoa relativamente boa (há controvérsias, tô ligada!) e mereço! Sim, eu sou foda! (mais uma vez há controvérsias e eu continuo ligada!)

Não tô lamentando nada, tampouco reivindicando. Tô apenas deixando claro que agora, aos 31, continuo com poucas certezas na vida, mas se algo a idade me trouxe foi a convicção de que é isso mesmo, de que nada cai do céu e que se eu hoje tô aqui, exatamente do jeito que eu estou, foi pelo simples fato de que eu trilhei o caminho. Sozinha, por livre e espontânea vontade. Se algo está bom ou ruim, o crédito é todo meu. O mundo é uma droga, eu sei, mas eu nunca fui muito melhor do que ele, nem do que ninguém. 

Chego aos 31 achando o mundo chato, a grande maioria das pessoas desinteressantes e continuo muitas e muitas vezes me perguntando o que raios estou fazendo aqui. Mas o problema é meu, somente meu. 

Sim, estou ficando velha e ranzinza!

Já posso partir o bolo?


domingo, 3 de junho de 2012

Olhos de ressaca.


Por vezes me parece necessário pisar um pouco no freio. Ontem, pela primeira vez na vida, desembarquei no aeroporto Santos Dumont dormindo! Acordei quando o avião tocou o solo e perdi a vista do nascer do sol que considero um dos mais lindos do mundo. Antes eu já havia dormido numas poltronas confortáveis que colocaram agora no aeroporto de Confins e em todo o trajeto do ônibus que me levou até lá. 
Sim, eu dormi e perdi trechos da vida.

Cumpri minhas tarefas de trabalho e segui para visitar parentes que me encheram de uma energia tão boa que não consigo explicar. Foram poucas horas ao lado de pessoas que tanto me deram afeto que saí de lá como se estivesse de alguma forma "recarregada". Enquanto aguardava o vôo de volta para BH, novamente no Santos Dumont, senti uma coisa tão gostosa! Sensação de amar e ser amada, de pertencimento. No trajeto de volta, já desperta, pude deliciar-me com um céu aquarelado emaranhado em tons alaranjados, azuis e vermelhos e me senti passeando delicadamente em uma tela em construção. Cheguei ao lado da lua cheia mais encantadora dos últimos tempos. 
Perdi o nascer do sol, mas não a sua morte!

E chego em casa a noite, depois de um dia de aeroportos, trabalho, encontros e cores. Sento-me no sofá e fico ali, imóvel, por um bom tempo. Meus gatos se aproximam e se aninham, um em cada lado. Permaneço em um estado contemplativo, como se eu estivesse me "desligado" por algum tempo. Pensamentos frouxos, que vão e vem devagar. Olho para o vazio. E ali fico por quase uma hora. Levanto-me, vou ao espelho e não gosto do que vejo. Meus cabelos estão despenteados, meu rosto com ar cansado e meus olhos... ah, meus olhos! Estão estranhos, entediados ,vagos, interrogativos. Não sei...
Lembro-me de quando me disseram, uma vez: "Você não é Capitu, mas tem olhos de ressaca!"
E eu quis saber o por que. 
"É como aquela onda cava e profunda que ameaça avançar e tudo tragar".

(....)

terça-feira, 29 de maio de 2012

Terceira Lei de Newton

Cheguei em casa com vontade de escrever. Liguei o computador, abri a tela do word e esperei. Nada aconteceu. As ideias fugiram todas de uma só vez e os pensamentos. que antes fervilhavam em minha cabeça , tomaram rumo ignorado. Fico encarando a folha em branco por alguns minutos. É como se ela me perguntasse: "E aí, Vanessa, o que é que você tanto quer dizer?" Não sei o que responder. Dou-me por vencida e fecho o notebook.
Vou até a cozinha, preparo um chá e afago meus gatos. Na televisão o noticiário fala sobre algum assunto que não me interessa, mas que certamente é importante para a nação, dada a seriedade com o qual a informação é transmitida. Passeio pelos meus livros na estante com os olhos, nada me atrai. Retorno para a folha em branco, que me encara sem vacilar. Sinto-me inquieta e desejosa de enchê-la de palavras, mas elas simplesmente não surgem. 
Relembro fatos do dia, vivências, sensações. Nada acontece. Permaneço no mais completo marasmo: eu e uma folha em branco de word. E então percebo que, em meu peito, algo está diferente: uma espécie de chacoalhar, como se dentro dele estivessem neste momento movendo-se em direções opostas e em altíssima velocidade turbilhões de rajadas de vento. É confuso, é denso, é instável. E a cabeça, por sua vez, segue vazia, em um silêncio assombroso.
Concluo então que meus pensamentos, habitualmente acelerados e caóticos, fugiram e resolveram esconder-se, hoje, dentro do meu peito. Deixaram-me meio abobalhada e com a sensação de que aqui dentro bate um tambor, não um coração. E eu não faço a menor ideia de como se faz para corrigir este desvio de rota.



domingo, 20 de maio de 2012

Nota sobre aquilo que eu desconheço.

Tem coisas que a gente entende, vê, nomeia e classifica. Existem, no entanto, elementos fugazes de sensações e apreensões que são fugidias e imprecisas, motivo pelo qual tornam-se inomináveis. 
O que fazer com toda essa "carga flutuante" que insiste em permanecer dispersa por aí?
Se eu soubesse a resposta talvez escrevesse um livro de auto-ajuda, um "best-seller". Ou talvez simplesmente utilizasse a técnica para mim mesma e ignoraria o resto do mundo. 
Enquanto não encontro a saída (se é que ela existe!), limito-me a vir aqui escrever esta breve nota sobre aquilo que eu desconheço. 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Dias assim.


Porque tem dias em que não há mesmo salvação.
Olho para os lados e só me deparo com gente desinteressante. Pessoas que nada tem a me acrescentar, pessoas para as quais nada tenho a oferecer. Todo um mundo de mesmice se impõe e a estupidez impera. Me pego pensando em tudo isso e penso: que preguiça disso tudo, que preguiça desse mundo, dessas pessoas e de mim mesma!
As vezes dá vontade de gritar, de sair correndo, de pedir socorro. Mas para quem? E por quê? 
Para que corro tanto? Aonde quero chegar? Quem são estes humanos que dividem o planeta comigo? 
Busco nas palavras algumas respostas mas elas por vezes me confundem mais ainda.
E dia após dia concluo que a mediocridade é a regra. Regra para tudo e todos, inclusive para mim, que deveria estar fazendo algo produtivo agora ao invés de estar aqui vomitando estas palavras.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

E se?

Será que era prá ter feito isso mesmo? E se eu tivesse mudado de ideia antes? E se eu tivesse simplesmente mudado o rumo? E se eu tivesse permanecido no mesmo lugar?
Será que eu estaria mais feliz do que agora?
E se eu não ousasse? E se eu escutasse a opinião de outros? E se eu tivesse decido na sorte?
Será que eu estaria aqui?
E se eu tivesse jogado aquele papel no lixo? E se eu simplesmente tivesse esquecido? E se eu ignorasse?
Será que eu teria sido capaz?
E se eu não tivesse corrido atrás? E se eu escolhesse outra coisa? E se eu não quisesse mais nada do que queria até então?
Será que me achariam louca?
E se eu voltasse atrás? E se eu largasse tudo o que agarrei? E se eu sumisse?
Será?
Interrogações, por favor, me deixem dormir. Pelo menos esta noite.
Obrigada.

terça-feira, 8 de maio de 2012

As sobras de cada um


Algumas pessoas passam pela vida de forma contida. Pisam devagar, para não fazer barulho, não serem notadas. Outras parecem saber a medida exata e transitam de forma adequada pela própria história. Um terceiro grupo é simplesmente incapaz de passar sem fazer estardalhaço, sem deixar rastro  e cruzam a vida como quem quer fazer chacoalhar tudo ao redor. (Como um elefante passeando em uma loja de cristais)

Eu, infelizmente, pertenço ao último grupo.


São sujeitos que eu nomearia como “transbordantes”. Indivíduos que tem tantas inquietações e desejos – obscuros ou não – que não há como não fazê-los “sobrar”. E é justamente este conteúdo que vai através dos limites do eu que nos dá esse ar de excesso. É como se tudo o que vemos, sentimos, apreendemos e etc. e tal não coubesse dentro do corpo. Daí a necessidade de jogar para fora aquilo que resta, que não cabe em lugar algum. Simplesmente não há espaço!


E é nesse processo de fazer sair o excesso que cada um vai encontrando seu caminho na vida.

O que eu faço com as minhas sobras? Depende. Tem dia que eu bebo, me descabelo, ando por aí sem rumo. Tem dia que escrevo, afundo-me em um filme ou um livro ou fico horas olhando para o teto, pensando. 


Mas hoje eu fiz brigadeiro.


sexta-feira, 4 de maio de 2012

Não, não é nada demais.


Sinto-me como se um trator tivesse passado por cima de mim. Febre, dores, mal-estar. Tentei resolver por auto-medicação, não funcionou. Por fim procurei um hospital e agora estou medicada corretamente. Repouso, antibiótico, xarope, analgésico, água. E dois gatos quentes e peludos zelando por mim.
Quando criança recebia os mais doces e dedicados cuidados quando adoecia. Mãe, avô, avós....todos ao meu redor, com preocupação. Recordo da única vez na vida em que me submeti a um procedimento cirúrgico: retirada das amigdalas, aos 04 anos de idade. Lembro-me do hospital, do meu quarto, dos presentes, dos sorvetes e das visitas. Lembro-me dos enfermeiros que me levaram  para a sala de cirurgia na maca e da minha mãe dando adeus, chorando, no corredor.
Depois que virei “adulta” e fui cuidar da minha vida – entenda-se, quando mudei de cidade pela segunda vez - perdi boa parte deste “suporte” que tanto me confortava em momentos frágeis. Daí recordo-me da minha primeira noite sozinha na observação de um hospital. Minha mãe estava a quilômetros de distancia e eu não queria incomodá-la, muito menos assustá-la. Só consigo me lembrar dos enfermeiros perguntando: “Você está sozinha?”, e eu, respondendo: “Sim, estou”.
É, eu estava sozinha. E desde então, por diversas vezes em que adoeci, propus-me a resolver tudo deste modo. Sempre entendi que por melhores amigos que eu tivesse, lidar com estas questões tão chatas seria um problema meu, não deles. Acho que o que eu precisava mesmo era ter de novo 04 anos e receber os afagos da minha mãe. Mas hoje, quando ela me ligou, eu só consegui dizer que sim, que estava tudo bem. Um pouco rouca, é verdade, mas era só isso, nada demais.
O que eu deveria ter feito? Não sei....mas a vontade era de gritar: “Mãe, vem prá cá, eu preciso de você, preciso que me faça cafuné, me ponha no colo, me dê remédio e diga que tudo vai ficar bem.” Mas não o fiz. E agora estou aqui, entre comprimidos e chás, entre edredons e gatos, pensando que as vezes a maturidade só serve para nos deixar um pouco mais estúpidos e solitários.

terça-feira, 27 de março de 2012

sexta-feira, 23 de março de 2012

Notas na porta da geladeira

Não é sempre que acontece, mas há dias em que não consigo pensar em outra coisa. Dias tristes, como os de hoje. As nuvens são um presságio de que nada está em seu devido lugar e que você não mais pode permanecer ocupando a mesma posição em mim. Não me leve a mal, apenas não mais sou capaz de enxergar algo que possa lhe oferecer, não existe no mundo o que quer que seja possível de doação neste momento. Nada tenho a dar, nada espero receber. As flores que plantei cresceram no jardim, algumas amarelaram por falta de cuidados, você não viu. Pássaros formaram ninhos em nossas árvores, mas você nunca teve tempo de atentar-se para a beleza do trabalho exercido pela natureza. Ou por mim.
Tem dias que eu só queria que você estivesse morto. 

segunda-feira, 19 de março de 2012

Outono

Outono, chegue devagar! Traga seus ventos de forma delicada, sem ferir ou bagunçar. Não se esqueça que em seus dias podemos nos extasiar com a beleza das folhas caídas e a secura dos galhos, que teimam em soltar-se da árvore mãe. Desprendem-se para morrer, engrandecendo ainda mais a paisagem urbana. A morte pode sim, ser bela. 
Outono, venha depressa! Varra as ruas, alamedas e praças com sua voracidade de vida, arranque folhas secas e jogue-as ao chão, formando lindos tapetes por onde passarei, encantada. Venha trazer a renovação, o anúncio de um novo tempo, mais ameno, porém não menos devastador. 
Outono, aproxime-se! Seja como for, compareça. Uma hora terás de partir, eu sei.
Mas por favor, ainda não se vá. 
Traga vida, morte, frio, vento, traga tudo. 
Não me poupe de nada. 
Nem da vida, nem da morte. 
Se possível, poupe-me somente dos estados letárgicos de sonolência profunda e apatia. Fora isso, não me poupe. De nada. 

sábado, 17 de março de 2012

Pensamentos de Frida

Os humanos são mesmo seres bastante curiosos! Inventam mil maneiras para se manterem conectados! Computadores, televisão, celulares, livros, jornais, etc, mas gostam mesmo é de viver isolados, em cubículos quadrados que insistem em nomear como "casa".
Aqui é assim. Vivemos eu, Zorro e minha humana em um micro-apartamento em um andar alto. Um edifício enorme, com vários outros quadradinhos acima, abaixo e a frente. Passo muitas horas no parapeito da área observando as janelinhas e vejo vários humanos solitários, cada um em seu caixotinho.
Nós gatos não somos tão estúpidos! Gostamos de viver em bandos, misturados e assim nunca nos sentimos só. Minha humana até tentou providenciar outro local para que eu e Zorro pudéssemos dormir separados, com mais conforto, mas coitada, ela não é capaz de entender que a gente gosta mesmo é de dormir junto na mesma caixa, espremidos, apertados um contra o outro. Assim a gente nunca se sente só.
Não entendo porque os humanos não fazem a mesma coisa. Ao invés de escolherem viver sozinhos em caixinhas, poderiam viver em bandos, em grupos. Certamente adoeceriam menos e acho que seriam muito mais felizes do que parecem ser.
Do meu ângulo de visão, consigo enxergar vários humanos em suas janelinhas. Lá no último andar tem um humano que vem muitas vezes a janela fumar. Nunca vi outra pessoa com ele, imagino que viva só e gaste a maior parte do seu tempo com os cigarros.
Dois andares abaixo tem uma moça que sempre aparece na janela falando em um telefone celular. Eu penso: se ela tem tanto o que falar, não seria melhor ir até o outro humano e conversar direto ?
Na janela quase em frente a minha vive um senhor, também só. Consigo vê-lo andando entre o quarto e a cozinha, o dia todo. Prá lá e prá cá, as vezes fico até zonza. Minha humana as vezes vai passear numa praça que tem aqui perto, ele bem que poderia ir andar lá.
Cada caixotinho contém um humano e suas estranhezas. Por aqui não é diferente.
Pelo menos aqui no nosso caixote tem eu e Zorro, o que deixa o ambiente menos melancólico. É até legal, temos sofá para arranhar, comida, água e uma humana de estimação.
Ela as vezes prefere ficar aqui, sozinha, com a gente, com uns  livros ou conectando-se com outros humanos através desses instrumentos esquisitos que só servem para deixar as pessoas cada vez mais distantes. 


quinta-feira, 8 de março de 2012



O dia internacional da mulher

ou

O lado de cá do abismo


Hoje cedo o taxista que me levou ao trabalho parabenizou-me pelo meu dia. Meus dois primeiros pacientes da manhã fizeram o mesmo. Ganhei uma rosa de um terceiro e recebi algumas mensagens de celular com felicitações. Na hora de pagar a conta do almoço, junto com a minha via do pagamento a débito, recebo da moça do caixa uma cartinha com um texto exaltando a mulher. Acho que nem no meu aniversário fui tão socialmente mimada.... Fiquei pensando: céus, prá que tanto? Será que ser mulher é algo assim tão especial?

Ok que a mulher dá a luz, é mãe, é acolhedora, e blábláblá. É lindo pensar na figura feminina perfeita e imaculada, mas eu realmente tenho enorme dificuldade em ver a mulher de uma forma tão clichê.(Preguiça de defender o óbvio..)  Whatever... (suspiro fundo..)

Eu sou mulher, mas não sou mãe, não sou santa, nem puta, nem melhor, nem pior do que outras, não sei se mereço rosas – corrigindo:  acho que todas as mulheres do mundo merecem rosas- e todos os homens, crianças, seres vivos, etc. Sou uma mulher comum, como tantas outras, que vive, ama, sofre, trabalha, paga contas, gosta de algumas coisas fúteis e outras nem tanto.  Sou apenas mais uma  – um ser da espécie humana do sexo feminino – que carrega consigo a dor e a delícia de ser o que é. Não entendo que haja nada demais nisso. Perco-me facilmente em uma multidão de tantas outras que habitam o mesmo mundo que eu.

(PAUSA)

Neste momento minha escrita é interrompida por um barulho de gritos e tambores vindos da rua. Colegas informam que trata-se da “Marcha das Mulheres”, promovida por mulheres sem-terra. Fico com vontade de ir até lá, mas estou em uma aula...ah, que se dane...finjo que vou ao banheiro, saio de sala e vou para a avenida...fico a observar aquelas mulheres tão sofridas, lutando, gritando, empunhando suas bandeiras, clamando por seus direitos, defendendo seus homens, seu filhos e suas vidas. Por um momento sinto um desejo imenso de juntar-me a elas, mas apenas observo, de longe... Preciso voltar...

(FIM DA PAUSA)

Volto para a sala de aula, para o segundo horário. Homens e mulheres bem formados e “cultos” discutem o lugar da psicanálise na pós-modernidade: o que nós, analistas, podemos trazer de contribuição ao debate? Acreditamos que somos capazes de mudar o mundo com a cara enfiada nos livros, sentados em cadeiras confortáveis e em uma sala com ar-condicionado, reproduzindo discursos por vezes enlatados e incompreensíveis, em um eterno festival de jargões e “semblant”, o que a pós-moderna cantora Lady Gaga chamaria de “Poker Face”.



(Ok, viajei... e nem usei nenhuma droga ilícita, juro!)

Embora apenas alguns metros separem fisicamente a sala em que assisto aula da avenida por onde desfilam as manifestantes, há um abismo intransponível que divide os dois lugares. Penso nas mulheres da marcha:  essas sim merecem prioritariamente as felicitações e rosas. Eu não. Eu escolhi o ar-condicionado e as palavras difíceis. Eu escolhi o lado de cá do abismo – e agora me esforço cotidianamente para não ser engolida por ele. 

segunda-feira, 5 de março de 2012


Mini-crônica de uma dia fantasmático

ou

O dia em que uma flauta me salvou

Após um longo e árduo dia de trabalho saí pelas ruas pensando em muitas coisas, algumas importantes, outras nem tanto. Pensei nos meus familiares, nas pessoas que amo, na rotina, nas obrigações e naquilo que gostaria de fazer e não posso, por uma série de razões. Quero, mas não dá, sei mas não entendo, conheço mas não alcanço, sinto mas não vejo. Todos os dias em que me levanto, penso que posso fazer algo a mais, transformando um dia comum em um momento único, mágico, que seja capaz de marcar toda a minha história e a das pessoas que me cercam. Um dia especial, em que sou capaz de extrapolar os limites imprecisos da fragilidade da minha existência, simplesmente humana.

A cabeça ferve, algumas dúvidas incomodam, as certezas machucam, os desejos angustiam.

Às vezes, dia sim, dia não. Às vezes, dia sim, dia sim. Quase nunca dia não, dia não.

Pela janela escuto um som de flauta e reconheço a canção Asa Branca. Ponho-me a escutar, atentamente, buscando identificar a melodia, que se confunde com buzinas, sirenes e motores de carros. Estou em uma escola de música, no centro da grande cidade, imagino que uma criança esteja, neste momento, aprendendo a dar seus primeiros passos no mundo encantado da música. Meu pensamento voa e os fantasmas somem. Só me resta o doce som da flauta, nada mais.



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Quando tudo dá errado

Nem sempre as coisas funcionam como deveriam. A gente pensa, planeja, traça uma série de metas e caminhos e um tufão chega para bagunçar tudo. O que parece estar resolvido de repente não mais está, o que parecia estar esquecido segue mais vivo do que nunca e o que já não mais dava sinais espera sorrateiramente na esquina, a procura de qualquer brecha para ressurgir com força total.

Ninguém disse que viver seria fácil, nem sei se é para sê-lo.

Não conheço  receitas ou fórmulas mágicas, mas de uma coisa tenho certeza: se tudo der errado, uma garrafa de vinho e um abraço são capazes de curar.

Sério!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A mulher mais importante do mundo

- O que você faria se hoje fosse domingo?
- Ahn? Como assim?
- Se hoje fosse domingo. Um dia fresco, com tempo livre e nenhum horário a cumprir.
- Hum, sei lá. Talvez dormisse até mais tarde. Talvez fosse dar uma caminhada na praça. E você?
- Eu faria muitas coisas ou nenhuma delas, desde que você estivesse ao meu lado.
- Sabia que você é a mulher mais importante do mundo?
- Não quero ser a mulher mais importante do mundo. Quero ser a mulher mais importante do seu mundo.

Reticências...

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Reticências

Olá, boa noite! Eu só queria me desculpar.
Não te liguei porque achei que não havia nada que eu pudesse dizer que iria te interessar. Não liguei porque minha vida passa por caminhos pelos quais você não gostaria de transitar. Eu não te liguei porque provavelmente diria "não" a todos os seus convites e "talvez" a todos os seus questionamentos. Eu não te entenderia, você não me alcançaria. Em questão de minutos eu me tornaria um ser repulsivo e pouco atrativo a seus olhos. Carrego comigo angústias e todo um mundo que estão muito longe da sua vida. Não caibo no seu espaço, você se perderia no vazio do meu. 
Enquanto você parece buscar um ponto final,  eu sofro de reticências. 
Que a vida seja amável contigo.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Quando tudo desmorona

Ontem vi a triste notícia do desabamento de um (ou dois?) prédios no centro do Rio de Janeiro. Fiquei extremamente angustiada, pus-me a ligar para amigos e certificar-me que todos estavam bem. Ainda assim, não me tranquilizei. Senti uma coisa estranha, uma sensação de que parte de mim estava machucada e havia desabado também, junto com pilhas de vigas, concretos e pessoas que nunca vi na minha vida.
Penso primeiro, claro, nas pessoas que ali estavam e nos parentes. Num outro momento penso na cidade, no Rio, como se fosse quase que um ser com existência própria. O Rio é muito mais do que uma cidade para mim. É o lugar que me deu o que tenho de mais precioso hoje na vida: o que eu sou. Cheguei uma menina, saí uma mulher. Cheguei assustada, saí corajosa. Cheguei ávida de viver, saí vivida. Lá tudo se transformou e se hoje tornei -me esta pessoa que vos escreve, agradeço ao Rio, aos cariocas (ainda que com aquele sotaque insuportável e o fato de acharem que tem o Rei na barriga, as vezes..), aos lugares que estudei, trabalhei, circulei, existi, sofri, aprendi, amei. Aquela cidade me é tão familiar quanto os cômodos da minha casa e lá me sinto acolhida. Serei eternamente grata ao lugar que tanto fez por mim, ainda que eu tenho feito pouco, ou quase nada , por ele.
O Rio só me fez crescer, meu deu a base forte de sustentação do ser humano que me tornei. Então, quando tudo desmorona fica estranho, um vazio, algo completamente sem sentido. O Rio não foi feito para desabar, ao menos não dentro de mim.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sobre laços, cabelos e fitas de seda.

Alguns laços por vezes me parecem tão frágeis que recordam as fitas de seda que minha mãe usava para prender meus cabelos, quando  criança. Laços lindíssimos, vermelhos, cor de rosa, salmão, bege, tons pastéis. Laços de uma seda tão pura que por diversas vezes escorriam pelos meus cabelos, teimando em não se fixar. E então meus cabelos permaneciam quase sempre soltos, bagunçados pelo vento. E dia após dia os laços se perdiam. 
Talvez se eu percorresse de volta todos os caminhos que fiz poderia encontrar minhas fitas de seda caídas por aí, nas calçadas, esquinas, ruas e jardins. Seria uma tarefa sem fim, uma vez que continuo perdendo outras, as vezes mais de uma no mesmo dia. 
Eu não nasci para ter fitas de seda nos cabelos. Elas se desfazem de mim . 


domingo, 22 de janeiro de 2012

A espera

Aguardava-o em uma praça. Ansiava pelo momento em que encontraria aquele que seria seu salvador em uma noite angustiante. Imaginava como seria o encontro, o que diriam um ao outro: "oi, como você está?", "e aí, o que tem feito?", "e as novidades?".... não, tudo parecia raso demais. Escolhera com cuidado o que vestir: não queria demonstrar desleixo, mas também não tinha a intenção de ser formal, algo simples e que não assustasse sua companhia. Vestiu-se então com jeans, camiseta e sandálias. " e se ele não gostasse?"...interrogações das mais variadas ordens pulsavam como feixes luminosos em sua cabeça. Engolia em seco uma saliva que era incapaz de produzir, esfregava as mãos, olhava para os lados. Ele estava atrasado. Olhava o relógio. O trânsito, certamente o trânsito. Ou alguma urgência. Talvez os compromissos do dia ainda não tivessem sido finalizados. Quem sabe um imprevisto qualquer, desses que acontecem com todo mundo, todos os dias? Algo muito, muito natural. Enquanto pensava, caminhava pela praça, a procura, a espera.
Os segundos somavam-se em minutos e onde ele estaria? Tudo parecia se mover em uma velocidade drástica, tudo parecia acontecer de forma veloz, mas ele não chegava. O tempo passava, ele não aparecia. Nem sinal, nem vestígio. Nada. Simplesmente o vazio.
Por mais que tentasse buscar explicações que pudessem justificar a ausência nada mais fazia sentido ou se encaixava. Ele não veio porque não veio. Porque não quis, porque conseguiu um programa melhor. Ele não veio porque na vida nem tudo é passível de explicação. O mundo segue a girar, as crianças continuam correndo pela praça, casais namoram nos bancos, amigos se divertem pelo gramado, senhoras passeiam com seus cachorrinhos. E ele não veio. O comércio do entorno já fechou as portas, amanhã tudo reabre, amanhã tem mais. Fiéis seguem para a Igreja, fazem suas orações, mas amanhã tem mais. Sempre existe mais, o mundo segue a girar, pessoas estão por todos os lados, casais namoram nos bancos, velhinhas passeiam com cachorros, pipoqueiro, policial, criança. No dia seguinte o pão quente sairá no mesmo horário e o jornaleiro abrirá sua banca anunciando as principais manchetes. Carteiros percorrerão as ruas trazendo as correspondências, catadores de papel varrerão a cidade em busca de material reciclável e milhares e milhares de almas transitarão por todos os espaços, formando um emaranhado de seres que vagam solitários pela metrópole.
E ali, sozinho naquela praça escura, deu-se conta de que era só mais um no mundo. Talvez um só mais solitário que os demais.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Quando as palavras faltam.

Sou capaz de descrever muitas coisas. Bicho, planta, cor, sabor, aroma, gente. Sou capaz de identificar aspectos que na maioria das vezes passam batido no cotidiano. Aprendi a classificar lugares, experiências, temáticas e mais uma série de características deste mundo que habito. Sei empilhar, recortar, agrupar, separar, colar, remendar. Consigo nomear quase tudo e aquilo que não sei o nome, pesquiso ou invento. 
Mas de certas coisas não entendo. Não sei nomear, tampouco explicar,  faltam palavras. 
E acho difícil que um dicionário possa me ajudar. 


ps: lembrei-me das sopas de letrinhas que eu tomava quando criança... 

ps2: talvez uma sopa de letrinhas numa noite fria possa me ajudar mais que o dicionário...

ps3: aonde encontro uma sopa de letrinhas?

ps4: esqueça. deita e durma, amanhã é um novo dia.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Notas sobre a humanidade.

Sombras, vultos, borrões, lampejos luminosos que se deslocam num ritmo voraz, incapaz de qualquer apreensão. Pessoas correm todos os dias e, na maioria das vezes, nem sabe para onde vão. Repetem todos os dias os mesmos afazeres de forma automática, num ciclo sem fim, de repetição e morte. Um ciclo de mediocridade e tédio. Gastam horas a fio em intermináveis discussões sobre o tudo e o nada que inevitavelmente não levará a lugar algum. Vivem como cachorros que correm atrás do próprio rabo, sem se dar conta de que viver é muito, muito mais do que apreender o que está próximo ao umbigo.
Humanos, humanos....
(......)

Se a reencarnação de fato existe, aonde me inscrevo para vir bicho na próxima ?



segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Barulhinho.

Não tinha muitos sonhos próprios. Dedicara a maior parte de sua vida a satisfazer os desejos dos que amava e entendia que, deste modo, estaria também atendendo aos seus desejos. Descobriu, talvez um pouco tarde, que ver o outro feliz não necessariamente implicaria em sê-lo também. Nutria um genuíno desejo de fazer a diferença na vida de todas as pessoas que cruzavam seu caminho e empenhava-se com muito afinco em sair da vida delas, deixando algo de bom.
Porém, um belo dia, percebeu que a vida não era lá tão fácil. Ainda que tentasse amar de forma inequívoca e afagar a todos que estavam a sua volta, viu-se diante de momentos em que as pessoas simplesmente partiam sem nada levar. Uma carta, um bilhete, um poema, uma lembrança de amor. Nada era levado. Tudo permanecia no mesmo lugar, como se esquecido ou talvez deixado propositalmente: na escrivaninha, na gaveta do criado-mudo, na lata do lixo. Lá ficavam todos os resquícios daquilo que um dia fora partilhado com tanto afeto.
Então ela esvaziava tudo e recomeçava do zero. Precisava de espaço para os novos fragmentos que construía dia a dia, embora não fizesse a menor idéia do que fazer com eles. Se conseguisse achar um ângulo perfeito contra uma corrente de vento seria capaz de provocar um barulhinho gostoso no vazio em seu peito. E ela gostava de barulhinhos.