sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A vendedora de rosas


Quando a conheci, Angelina vendia rosas em uma praça perto da minha casa.  Tinha aproximadamente vinte anos, embora aparentasse mais: algumas rugas denunciavam uma exposição excessiva ao sol. Cabelos negros, longos, ressecados, presos em uma longa trança. Vestido de chita, florido, que realçava a beleza de seu corpo. Sandálias de borracha. No pescoço um colar e um pingente com a foto de Jesus Cristo, destes facilmente comprados por alguns centavos em camelôs.

Era natural de uma cidade do interior do nordeste.  Não se recordava da mãe, que morrera muito cedo vítima de uma doença inexplicável. O pai, na época, sem condições de sustentar os doze filhos, distribui-os entre famílias com mais condições na região. Ainda criança, foi morar com um casal na capital do estado e nunca mais viu seus parentes. Neste novo lar era tratada como empregada e, desde muito cedo já arcava com pesadas tarefas domésticas. Aos quinze anos cansou-se da vida sofrida que levava e fugiu. Chegou a São Paulo pegando caronas. Sem qualificação, conseguiu como única opção de sustento o trabalho informal das ruas, vendendo rosas.

Aprendeu a se defender do perigo das grandes cidades, e por isso não costumava conversar muito com os fregueses, a quem usualmente atendia desviando o olhar. Só consegui aproximar-me dela após muitos e muitos meses de aquisições freqüentes. Eu comprava rosas só para ter o prazer de vê-la. Algo me encantava naquela figura tão simplória e amedrontada.

Em uma bela manhã de domingo fui até a praça em busca das flores, ou melhor, a procura da moça por detrás da banca de flores. Não a encontrei.  Perguntei a outros ambulantes e ninguém sabia onde ela estava. Senti um misto de tristeza e preocupação. Teria adoecido? Quem a teria socorrido? Será que precisava de algo? Será que precisava de mim?

Lembrei-me então, da única vez que ela me disse o nome da favela em que morava. Em um ato impulsivo, decidi procurá-la, mesmo sabendo dos riscos implicados em adentrar um território que poderia ser hostil. Depois de muito perguntar, soube que Angelina estava há muito tempo guardando dinheiro para retornar a sua terra natal e que, naquela manhã, deixara a comunidade com uma pequena mala, suficiente para levar tudo o que tinha. Saí de lá com uma recomendação: “Se você correr ainda a pega na rodoviária”.

Mas eu não corri. Que direito eu tinha de impedir que a vida seguisse o seu curso? Voltei para casa pensando na minha doce vendedora de flores. Desfazer-se de tudo o que já foi construído e retornar ao ponto de partida é renascer. Minha rosa estava para desabrochar e esta cena eu não veria.





domingo, 7 de agosto de 2011

Medos

Tenho medo de tantas coisas: barata, aranha, escorpião. Tenho medo de gente, de cachorro bravo e de falta de dinheiro. Tenho medo da solidão, do futuro, de algumas escolhas que faço e medo de me acomodar, seja lá com o que for. Tenho medo de não saber.