domingo, 20 de março de 2011

O encontro

Retornar a cidade aonde passei a maior parte da minha vida sempre me traz um turbilhão de lembranças. Desta vez deparei-me com um local aonde passava muito tempo enquanto pequena: um clube. Revi o balanço, o carrossel e o bondinho em que eu brincava por horas a fio, a piscina aonde aprendi a nadar e o bosque, um dos meus locais preferidos. Senti mutas saudades de tudo  o que vivi ali e me pus a observar as crianças que se divertiam ao meu redor. Por um breve momento foi como se eu me visse ali....uma menina com um maiô azul com uma melancia bordada no peito, cabelos pretos curtos, correndo pelo parquinho. É como se eu aos quase 30  pudesse dialogar com a Vanessa de 07,08, 09 anos....hoje teria muito o que dizer a esta criança mas minha maior curiosidade seria saber o que a pequena menina diria para a mulher de agora. Meu primeiro pensamento foi: será que ela gostaria do que veria?
Pelo sim pelo não achei melhor não incomodá-la e deixá-la lá brincando. Talvez  para sempre.


domingo, 13 de março de 2011

Nino

Sabe, eu sempre fui um rapaz tímido, passei a maior parte dos meus dias sozinho. Perdi meus pais quando pequeno e ainda muito jovem tive que me sustentar. Já fiz de um tudo nessa vida.  Hoje trabalho em uma loja de produtos eróticos e também no trem fantasma de um parque de diversões em Montmartre. Eu me fantasio de monstro e assusto os freqüentadores do brinquedo. Pode parecer um emprego estranho, mas acho divertido.
Desde menino eu gostava de colecionar fotos, em especial as de tamanho 3x4. Guardava em uma velha caixa de sapatos retratos de familiares, amigos e até mesmo de desconhecidos, que em golpes de sorte encontrava em lixeiras. Sim, eu revirava até o lixo em busca de material para minha coleção. Um dia descobri que as máquinas de foto- expressa das estações de trem são ótimas fornecedoras de matéria-prima: muitas pessoas não satisfeitas com o resultado de suas fotografias as descartam ali mesmo. Munido de tesoura e cola, eu percorria diversas estações recolhendo e colando todas que encontrava em meu álbum.
Nunca tive namorada. Sempre achei que nenhuma garota se interessaria por mim: feio, pobre, tímido, sem grandes perspectivas. Preferia ocupar meu tempo com meus pensamentos e com meu passatempo. É como se eu não soubesse se relacionar com outros humanos, sabe?
Você deve estar pensando que minha vida era meio sem graça.... tenho que admitir, era mesmo. Perdia horas e mais horas isolado em meus devaneios, buscando os retratos ou trabalhando. Nada de diferente acontecia em meus dias. Até que eu a conheci. Na época, perdi meu álbum de coleções em uma estação de trem e ela o encontrou. Se eu sou um cara estranho, acredite, ela é ainda mais. Ao invés de me devolver diretamente, montou uma espécie de jogo-charada para que eu o localizasse e posteriormente a encontrasse. Foi assim que nos apaixonamos. Rimos muito hoje lembrando dessa história.
Ela é garçonete e , assim como eu, vivia sozinha e não tinha muitos amigos. De imediato nos identificamos. Nosso desamparo, nossa solidão e nosso gosto pelas pequenas coisas que, em geral, passam despercebidas para a maioria das pessoas, nos uniu. Muitos nos consideram um casal excêntrico, mas somos felizes assim. Ah, me desculpe, mas ainda não lhe disse meu nome: Nino Quincampoix, muito prazer. Minha namorada se chama  Amélie. Você é daqui mesmo?

domingo, 6 de março de 2011

Sim, eu quero o meu circo.

É carnaval!!! Tempo de usar fantasias criativas e coloridas, dançar pelas ruas, cantar, confraternizar. Época de relembrar marchinhas famosas em antigos carnavais e cantá-las em alto e bom som!!! Que me perdoem os que não gostam, mas eu AMO o carnaval. Acho fantástico parar por quatro dias e brincar como se não houvesse manhã, como se o mundo se reduzisse ao bloco do qual participo ou da escola na qual desfilo. Naquele momento eu sou uma melindrosa, uma fada, uma bailarina ou simplesmente uma foliã.
E é também nessa época festiva que surgem os comentários daqueles que se consideram muito politizados. Ninguém é obrigado a gostar da festa de momo, mas daí rotular todos os que gostam como alienados é demais para a minha pessoa. O carnaval é uma festa popular, que gera lucros exorbitantes para o país e não vejo nada de mal em parar as atividades que realizamos rotineiramente UMA VEZ AO ANO para um momento tão singular.
Eu trabalho, estudo, leio, não sou uma total desinformada, defendo muitas bandeiras, pago impostos e cumpro com todas as minhas obrigações civis. E não me sinto menos cidadã por me fantasiar e sair pelas ruas brincando o carnaval. Eu quero poder ter o direito ao meu circo, pelo menos quatro dias por ano.

Fui pro bloco.
(PS: Se quiserem discutir algum assunto sério procurem-me depois da quarta de cinzas)