domingo, 27 de fevereiro de 2011

Crônica sobre a infância


É bem curioso quando pensamos em nosso passado e percebemos, com algum assombro, que a criança que fomos um dia continua até hoje em nós. Não sei se isso é bom ou ruim. Aliás, não sei se é para ser bom ou ruim.
Recordo-me dos momentos em que ficava olhando pela janela as crianças brincando na rua. Meninos correndo, jogando bola, soltando pipa. Estas diversões não estavam ao meu alcance. Segundo minha mãe, este não era ambiente adequado para uma menina como eu. Enquanto meus colegas cortavam os pés correndo descalço e sujavam-se a ponto de ter que jogar a roupa fora, eu ficava em casa, sempre com meus sapatos impecáveis e as roupas limpas. Em minha solidão, eu encontrava refúgio nos livros e nas palavras. Elas eram as minhas amigas. As histórias que eu lia me levavam para lugares bem mais distantes. Conheci países, idiomas, fatos históricos e segredos que não teria conhecido no meu bairro.
Quando tirava férias ia passear no Rio de Janeiro, cidade em que nasci. Lá, também não podia ficar na rua, afinal, era ainda muito mais perigoso. Meus dias se resumiam a ser mimada pelos meus avós paternos, o que, confesso, não era nada ruim. Aos finais de semana, saía para passear com minha madrinha que me levava ao teatro ou à biblioteca. Parecia que os livros estavam mesmo destinados a mim. Por mais que eu tentasse fugir – o que na verdade nunca quis – eles me encontrariam com facilidade. “Presa fácil essa menina” deveria ser a frase dita do dicionário ao livro de poesia, enquanto eu transitava dentre as enormes estantes.
Quando já moça, com maior autonomia, não queria mais desbravar a rua. Queria desbravar o mundo. E o fazia: na biblioteca da faculdade. Horas e mais horas mergulhada em viagens tão próprias, que não permitiam acompanhante. E eu prossegui sozinha. Não acho que minha mãe tenha errado em tentar me proteger dos desvarios do mundo, nem que meus avós tenham pecado por me manter sob vigilância. Com os livros consegui muito mais do que teria obtido na rua. Mas sabe, uma coisa o livro nunca me deu: o prazer de correr descalça e de soltar pipa com as crianças da vizinhança, pelo bairro. Se alguém, dia desses, ver uma mulher correndo de pés no chão por aí ou olhando um papagaio que se enroscou num fio de alta tensão, tenha certeza, há uma boa chance de ser eu.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Meus ombros não suportam o mundo.



Por diversas vezes já me perguntei o que estou fazendo neste planeta. Há quem diga que veio ao mundo a passeio, existem os que defendem ideais humanitários ou ainda os que se engajam arduamente em uma missão própria. Enfim, todo mundo está aqui por algum motivo, em busca de alguma coisa. Não sei se é um privilégio meu,mas por diversas vezes me perguntei: "Que raios faço eu neste mundo?".
Não tenho muitas certezas, mas de uma coisa eu sei: isso tudo é muito pesado, meus ombros não suportam.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

E agora Jose?

As vezes é mesmo preciso parar e voltar a superfície para tomar um pouco de ar. Quando pensamos que já sabemos de tudo de repente um revés nos coloca diante da nossa incapacidade e falibilidade humana.Quem disse que viver seria tarefa simples? O mundo por vezes é tão intolerável que esconder-se parece ser uma estratégia inteligente. Mas como tudo há sempre o outro lado. Escapa-se de algo, mas não do todo. Sempre sobra alguma fagulha, algum resquício capaz de ferir. E dói, dói muito.
Drummond já questionava José, instigando-o a encontrar uma solução em meio a seus devaneios mundanos: "E agora José?", cutucava o poeta. Fico imaginando o pobre José ao ouvir a pergunta de seu criador: acuado, confuso, solitário. Por quê fostes tão cruel Drummond? Por quê não estendeu simplesmente a mão ao pobre homem, por quê somente não ofereceu seu ombro amigo e o ouviu chorar? Drummond, não te reconheço!
De nada adiantaria bradar contra o poeta porque ele está em toda a parte. Seremos eternamente questionados e pressionados a tomar  decisões que implicarão diretamente em nossos destinos e talvez no de terceiros. Por quantos Drummonds você já não sentiu-se cobrado? Chefes, colegas, amigos, parceiros afetivos, parentes, vizinhos, passantes na rua..... são muitos Drummonds que nos cercam e nos colocam diariamente à prova.
Por mais que você se demita, rompa o namoro, brigue com a família e se mude para um casebre perdido no Nepal, ainda assim não se verá livre do "E agora?": o pior dos Drummonds está em nós. E ele ainda sai na vantagem, porque nos conhece melhor do que qualquer outra pessoa.

Estamos todos perdidos!


 E agora?