terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sábado.

Sábado, 19:15. Embora o calendário apontasse a chegada da primavera, o cronômetro ainda marcava baixas temperaturas. A moça esperava a chamada para o embarque de seu vôo, apoiando o queixo nas mãos, enquanto folheava preguiçosamente uma revista. Trabalhava como contadora mas quando era criança queria ser bailarina. Morava em um arranha-céu, gostava de andar descalça e tinha o desejo de retomar as aulas de teatro, que abandonara ainda jovem.

O moço estava sentado do lado oposto. Por trás de seus grossos óculos de aro preto, lia as notícias do jornal do dia. Era advogado de uma pequena empresa, mas quando menino queria ser astronauta. Morava em uma casa bonita, porém pequena, gostava de ler sentado em um banco de praça, aos domingos, e tinha o desejo de integrar uma banda de jazz.

Se o moço e a moça se encontrassem, viveriam juntos em uma simpática vila. Passeariam por muitas praças, e enquanto ela andaria descalça pelo gramado, ele leria. Ela teria incentivo para ingressar em um grupo de teatro. Ele teria iniciado aulas de saxofone. Sonhariam acordados juntos, relembrando a infância, quando ela queria ser bailarina, e ele, astronauta.

Mas nada disso aconteceu. A voz robotizada típica dos alto-falantes de aeroportos anunciou o vôo da jovem. Pouco tempo depois, a mesma voz retornou e chamou o embarque do rapaz, que seguiu para o lado oposto do saguão.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Dois posts em um

Hoje perambulando pelas ruas do centro de BH, começei a prestar atenção nas frases mais ditas pelos vendedores, lojistas e divulgadores em geral:

"É um real! É um real!"
"Dentiiiiiistaaaa!!! Avaliação sem compromisso!!!"
"Promoção, promoção!!!!"
"Compro ouroooo!!!"
"Foto 3x4 na horaaaa!!!"

Consegui também captar algumas falas e cenas de passantes em geral:
1) Namorada chorosa abraça o namorado e diz: "eu te perdôo, mas só dessa vez, tá?". O moço a abraça e sem que ela veja faz "joinha" para um amigo que está mais a frente.

2) Vendedor na porta da loja, conversando com um homem: "Vem umas velhas aqui, aí eu chamo tudo de moça, jovem, senhorita....elas compram que é uma beleza!!"

3) Duas mulheres andando apressadas. Uma diz: "Eu vou por na justiça". A outra, retruca: "Mas antes não é melhor conferir seus direitos?". A resposta categórica: "Não quero saber, vou por na justiça".

4) Senhor ao ver uma apresentação teatral em praça pública: "Que bando de gente a tôa!".


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Esta última fala aborda o tema que eu gostaria de tratar neste post (é que eu não resisti à vontade de registrar antes coisas que vi e ouvi hoje.) Saí de casa para assistir a uma apresentação teatral do Festival Internacional de Teatro de BH, o FIT. São várias peças, encenadas em teatros e nas ruas da cidade, em centros culturais e até mesmo em estações de metrô.
A peça que assisti hoje chama-se "Das saborosas aventuras de D. Quixote". Tudo começa com noivas que caminham atravessando as ruas da esquina mais movimentada da cidade, o cruzamento caótico da Avenida Amazonas com Afonso Pena. Isso tudo às 12:30, hora de trânsito intenso. Alguns pedestres censuram ou riem. Carros buzinam, motoristas reclamam. Outros apreciam, e deixam seus veículos para ter uma visão melhor da cena que se passa diante de seus olhos. As noivas sobem no palco junto ao pirulito da praça sete e apontam todas em uma mesma direção, para o alto. De lá, de um dos maiores prédios de BH, uma outra noiva surge de rapel. Desce no meio da Afonso Pena e corre (isso mesmo, corre!), junto com as demais companheiras para outro ponto da praça sete. Os espectadores são obrigados a correr junto com as atrizes, para acompanhar a cena. Em outro ponto, as noivas novamente apontam para o alto. É a vez do noivo. Dom quixote desce de rapel, de cabeça para baixo. Já em solo, encontra seu fiel escudeiro, Sancho Pança, e seu cavalo, caracterizado com uma carroça de madeira. Inicia-se então a busca por aventuras de Dom Quixote. Enquanto desenrola-se a cena, as noivas interagem com os passantes: entram em lojas, observam os jogadores de dama da praça, sentam-se nos bancos. Por vezes, sobem em prédios e são vistas das janelas, observando Dom Quixote. Enquanto isso, o personagem principal atravessa ruas, sobe em bancos e em escadarias, dirigindo-se ao público e a Sancho. Outros personagens surgem do meio da multidão, como inimigos que Dom Quixote encontra em seu caminho. O público torce, aplaude e se delicia com este jeito novo de fazer teatro.
Após o fim da apresentação, os passantes seguem, cada um para um lado diferente. Alguns correm apressados para o trabalho, outros sentam-se na praça, outros caminham para as lojas ou para o ponto de ônibus.
Todos prosseguem na dura e saborosa aventura da vida, como autênticos Dom Quixotes de La Mancha.

Vídeo sobre a apresentação de terça-feira, dia 10/08/10

http://www.youtube.com/watch?v=JZSjMfnmR3o&feature=youtu.be&a





quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Um dia em Juiz de Fora


Não dizem que todo bom filho à casa retorna? Então, cá estou eu, novamente, na cidade em que me tornei o que sou hoje: Juiz de Fora.
Minha relação com esta cidade é de amor e ódio. Já reclamei (e ainda reclamo) dela diversas vezes, aponto milhares de defeitos e satirizo muitos de seus costumes provincianos. Mas tenho que dar o braço a torcer e reconhecer que fui muito feliz aqui. E sou, cada vez que volto.
Em um aspecto acho Juiz de Fora imbatível: a EDUCAÇÃO das pessoas que aqui vivem. Cidade limpa, passageiros que agradecem ao motorista de ônibus no término da viagem, passageiros que cedem lugar aos idosos, pessoas que se desculpam ao esbarrarem em você na rua, pessoas que respeitam filas. Isto existe, minha gente, isto é Juiz de Fora.
Hoje caminhando pelo centro da cidade, recordei-me de vários momentos felizes que tive aqui. Pipoca no Parque Halfeld, escalada ao morro do cristo (foi meio programa de índio, mas foi legal), cinema no cine excelsior (aquele que está fechado para reforma há 10 anos!!!), "Titanic" no cine veneza, piscina na AABB.... isso só lembrando da infância e pré-adolescência! Seguindo mais adiante, chego aos meus anos de Federal!!! Que saudades da época da faculdade!!! Saudades dos Justificarcoredores, das salas, da cerveja quente em copinho de plástico das sextas-feiras, da comida duvidosa do RU, das boas (e nem tão boas assim) conversas pelos cantos, das festinhas, dos amigos, de alguns professores. Saudades de uma época em que minha única grande preocupação consistia em fazer a média nas provas. Saudades de uma época em que fui muito, mas muito feliz.
Por essas e outras que só tenho a agradecer à cidade que me acolheu de forma tão carinhosa, mesmo que eu, por muitas vezes, não a tenha tratado da mesma forma. Acho que toda relação afetiva é assim né? Entre o amor e o ódio.
Porém, hoje eu sou só amor.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Tô de férias

Eu sei que tô muito sumida do blog... correria, meu povo, correria!
Agora, enfim, cheguei em minhas sonhadas férias!
Tempo de por o sono, as leituras e os papos com os amigos em dia. Tempo de rever quem se ama e mora longe. Tempo de sonhar acordado.
Acabei dando um tempo também nos contos que estava escrevendo. Quem sabe nestes dias não retomo minha produção???
Hoje, em meu primeiro dia oficial de férias, quero fazer algo de que gosto muito: caminhar pelas ruas do centro de Belo Horizonte. Sempre passo por ali correndo, indo ou voltando do trabalho. Muitas vezes perdemos cenas importantes, nuances, cheiros e cores que poderíamos ter captado com um olhar mais paciente e atento.
Hoje eu vou de tênis e bolsa tira-colo. Hoje eu vou com calma. Hoje eu vou devagar.
Descobrir novas lojas, sentar no banco da praça. Quem sabé até papear com alguém? A vida na cidade grande as vezes é tão sufocante. Acho que posso fazê-la ficar um pouco mais leve ao menos nas férias.
Alguém se habilita?