terça-feira, 27 de outubro de 2009

O tempo que jamais passou.


Pouco conhecia da vida. Sabia apenas que era preciso vencer. Desde pequena ouvira de sua mãe que precisava conquistar seu lugar ao sol. Não um lugar qualquer, mas um lugar especial, desses que causam inveja em muitos. A menina nem queria esse lugar. Não queria lugar nenhum, a não ser o que já tinha e o que já bem conhecia, e que justamente por este motivo lhe parecia o mais seguro de todos.
Mas não, não podia permanecer ali. Por mais que desejasse não mudar em dado momento foi necessário que a menina se posicionasse perante a vida e fizesse suas próprias escolhas. Não mais podia esperar respostas prontas da vida, tampouco soluções milagrosas. Mais tarde acabaria por descobrir que as mesmas não existiam. Bem diferente de tudo o que sempre lera nos contos de fadas.
Quando chegou o momento a menina sentia-se perdida. Sentia-se só. Diante de tamanho desamparo optou pela estratégia do "não pensar". Não pensar na própria vida e apenas seguir o caminho que via adiante. Assim numa tarde ensolarada arrumou sua mala e entrou num ônibus. Mal podia imaginar que naquele exato momento o que deixara para trás jamais voltaria a fazer parte de sua vida com a mesma força.
Enquanto chegava a seu destino revia toda a sua história, como num filme antigo. Revia cenas engraçadas, cenas não tão engraçadas e cenas comuns. Revia sua vida, seus momentos, seus medos, seus fantasmas, seus amores. Sabia que estava dando um passo em direção ao seu futuro, mas não fazia a menor idéia do motivo pelo qual o fazia. Talvez uma sucessão natural de acontecimentos. Quando pequena aprendera na escola que tudo que é vivo nascia, crescia, se desenvolvia e morria. Com ela não poderia ser diferente. Ela precisava crescer e se libertar de tudo o que lhe parecia confortável para se aventurar em busca do tal "crescimento". Acreditava que assim encontraria a sua felicidade.
Considerava-se uma pessoa feliz, ou ao menos uma pessoa que viveu muitos momentos felizes. Mas felicidade plena como as que passam nos filmes ela nunca havia vivenciado. Achava que ir em busca de sua "sucessão natural de fatores"acabaria levando-a a felicidade plena. Parecia que todo mundo vivia em busca disso. Por quê com ela seria diferente?
Movida de um misto de coragem e medo a menina seguia a viagem. Da sua janela avistava cidades desconhecidas, casebres, pessoas em bicicletas, pessoas em cavalos, pessoas a pé, pessoas. Não sabia exatamente o que encontraria a frente. Tinha apenas uma única certeza: a de que estava exatamente aonde deveria estar.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Ela e a cidade.


Andava perdida pelas ruas da grande cidade. As vezes apressava o passo pelo fato de estar atrasada ou simplesmente por não ter o que observar naquele local. Por vezes caminhava devagar, quase que num saculejo lento e preguiçoso, observando as pessoas, as ruas, as placas, as lojas. Tudo lhe parecia tão belo quanto distante.
Gostava de caminhar sem rumo. Já havia feito grandes descobertas deste modo, como uma simpática lojinha que vendia discos raros e uma cafeteria que servia um expresso incomparável. Não costumava demorar-se muito nesses lugares. Sentia sempre que algo a apressava, e por isso não perdia mais do que alguns minutos em cada parada perambulando pelas ruas.
Desde pequena nutria o desejo de morar em uma metrópole. Não conseguia entender muito bem como as pessoas podiam ser felizes sem morarem no olho do furacão, exatamente naquele lugar onde tudo acontecia. Na maioria das vezes nem estava presente nos grandes acontecimentos, limitando-se a viver em seu mundinho particular, lendo em seu sofá ou observando a vida passar de sua janela. Mas o fato de saber que poderia ter participado dos acontecimentos se quisesse soaria como reconfortante. E assim ela prosseguia. Em meio a uma multidão somente para ter a segurança de que estaria perto de tudo, caso assim desejasse.
Mas não. Ela nunca desejava. Em seus mais íntimos sonhos imaginava-se com uma vida pacata, uma casinha bege de telhado vermelho, com um jardim na frente e cercas de madeira. Teria um companheiro, teria filhos? Sim, teria. Em seus sonhos teria uma família perfeita. E claro, seria muito, muito feliz.
Mas a realidade com a qual se deparava não era essa. A solidão da grande cidade não a permitia viver na casa bege de seus sonhos. Em grandes cidades a prudência pede que se busque moradias mais seguras. Então ela foi morar em um apartamento seguro, em um andar bem elevado. De lá podia ver as pessoas passando pela rua. Figuras minúsculas, vagando de um lado a outro. O que elas estariam fazendo? Para onde estariam indo? Será que estavam felizes?
Ela gostava de gastar algum tempo com questionamentos acerca das pessoas que observava. Talvez fosse um modo de desviar tais questionamentos de si mesma.
E seguia observando a cidade.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Fobias


Gosto de usar este espaço mais para registrar sentimentos e percepções próprias, e por isso não costumo postar textos, letras de músicas e/ou qualquer outra manifestação que não seja de minha autoria. No entanto ontem li uma crônica de Luís Fernando Veríssimo que me deixou assombrada. Sabe quando lemos algo e temos a nítida sensação de que foi escrito para nós? Então, foi esta a sensação que tive ao ler a crônica intitulada "Fobias". A crônica trata de dois assuntos que já mencionei em outros posts: a dificuldade de conviver com a ausência do que a cidade grande nos oferece e o desespero daquele que é viciado em leitura ao perceber que não tem nada para ler. Li, reli, reli e reli. Deliciei-me com as palavras de Veríssimo.... não resisti e decidi transcrevê-la.... a crônica é dividida em duas partes, e transcrevo-a exatamente com a divisão colocada pelo autor. Contudo retiro um trecho, para tornar o post mais enxuto:


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Fobias
(Luis Fernando Veríssimo)

"As pessoas que defendem o pastoral e a volta ao primitivo nunca se lembram, nas suas rapsódias à vida rústica, dos insetos. Sempre que ouço alguém descrever, extasiado, as delícias de um acampamento - ah, dormir no chão, fazer fogo com gravetos e ir ao banheiro atrás do arbusto - me espanto um pouco mais com a variedade humana. somos todos da mesma espécie, mas o que encanta uns horroriza outros. Sou dos horrorizados com a privação deliberada. Muitas gerações contribuíram com seu sacrifício e seu engenho para que eu não precisasse fazer mais nada atrás do arbusto. Me sentiria um ingrato fazendo. E a verdade é que, mesmo para quem não tem os meus preconceitos, as delícias do primitivo nunca são exatamente como as descrevem. Aquela legendária casa à beira de uma praia escondida onde a civilização ainda não chegou, ou chegou mas foi corrida pelo vento, e onde tudo é bom e puro, não existe. E se existe, nunca é bem assim.

-Um paraíso!Não há nem um armazém por perto.

Quer dizer, não há acesso à aspirina, fósforos ou qualquer tipo de leitura salvo, talvez, metade de uma revista “Cigarra” de 1948, deixada pelos últimos ocupantes da casa quando foram carregados pelos mosquitos.

-A gente dorme ouvindo o barulho do mar…

E de animais terrestres e anfíbios tentando entrar na casa para morder o seu pé. E, se morder, você morre. O antibiótico mais próximo fica a 100 quilômetros e está com a data vencida.

Não. Fico com a cidade. A máxima concessão que faço à vida natural, no verão, são as bermudas. E, assim mesmo, longas. Muito curtas e já é um começo de volta à selva.”


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Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler (...) Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham "Frio"e "Quente" escritos por extenso, para saciar minha sede de letras. Já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri a lista telefônica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens, seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer coisa.

Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma insônia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, o sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência - e uma mensagem positiva. Recomendo "Gênesis"pelo ímpeto narrativo, "O Cântico dos Cânticos" pela poesia e "Isaías" e "João" pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse.

Mas, e quando não tem nem a Bíblia? Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga.

- Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia feminina..

- Você não entendeu! Eu quero uma reista Amiga. Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa.

- Infelizmente, não tenho nenhuma revista.

- Não é possível! O que você faz durante a noite?

- Tricô.

Uma esperança!

- Com manual?

- Não.

Danação.

- Você não tem nada para ler? Na bolsa, sei lá.

- Bem... Tem uma carta da mamãe.

- Manda!