quarta-feira, 22 de abril de 2015

Hiato

Faz um tempo que não venho cá por estas bandas. Voltei hoje quase que para prestar satisfação para mim mesma: "Oi, eu não tenho escrito, não tenho deixado nenhum registro desta história, mas eu continuo aqui".
E por ora, isto basta.
Só preciso dizer a mim mesma que continuo aqui.
O que acontece é que a vida tem seus hiatos e eles são partes fundamentais do nosso crescimento, de nossa existência enquanto humanos.
E eu vou lá viver meu Hiato. Com certeza eu volto, eu sempre volto.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Procura-se

Já morei em três cidades distintas. Já estudei e trabalhei em vários lugares. Sempre fui uma pessoa de prosa fácil. Por essas e outras, acumulei um punhado de conhecidos ao longo da vida. Mas amigos, amigos mesmo, acho que são poucos.
Não que me faltem amigos, não é isso. Nunca me faltou companhia para sair ou para conversar. Mas amigo, amigo mesmo, para mim é bem mais do que isso. Não basta ser somente aquele sujeito que está comigo "para o que der e vier" e que esteja disponível sempre que eu precisar. Ao contrário, advogo pelo extremo oposto: eu procuro amigos que nem sempre estejam aqui e que, por isto mesmo, não exijam que eu esteja também.
Explico:
Percebo que a grande maioria das pessoas entendem que um bom amigo é aquele que sempre atende suas ligações, que sempre está com você, que topa todos os convites. Eu não penso assim, Acho que amigo é aquele que capta sua essência e, acima de tudo, respeita meus movimentos, desejos e negativas. O bom amigo me conhece tão bem, que sabe que pode contar sim comigo, mas que não necessariamente eu vou querer acompanhá-lo naquele bar ou naquela sessão de cinema. Não necessariamente eu vou querer sair naquele fim de semana. Mas se "o bicho pegar", eu vou aparecer, mas se não "pegar", talvez eu prefira estar cá, comigo mesma. 
Nada mais deprimente do que os "amigos" que te pressionam a fazer algo que você não está com a menor vontade. Quem nunca ´passou por isso e se sentiu obrigado a acompanhar algum amigo em determinado lugar ou evento que jamais teria ido por vontade própria? É triste...
Cultivo algumas poucas amizades que prezam pela liberdade. Os convites são sempre feitos por pessoas que entendem recusas e também recusam. E não precisamos inventar desculpas, é simplesmente: "ah, obrigada, mas hoje tô com preguiça..." ou "quero ficar em casa"... Meus amigos de verdade sabem que nem sempre estarei presente mas que, quando estiver, será unicamente porque quero estar e que me dedicarei a eles com todo o meu afeto naquele momento. 
Mas estas amizades são poucas, como disse....no vasto mundo das relações que estabelecemos no cotidiano, definitivamente este não é o caso da maioria que, quase sempre, opta por nos pressionar a fazer qualquer coisa que seja. "que desânimo!"..."já vai você dar uma desculpa.."
Dos meus amigos, não cobro nada. Peço apenas que estejam  comigo  em situações de urgência; nas demais, quando quiserem ou tiverem vontade. Liberdade é o lema! 

Procuro amigos que entendam ausências. 








segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Trabalhando menos

Hoje é um dia muito diferente: o primeiro em que não trabalho o dia todo em muitos, muitos anos.
Explico!
Desde que me formei (há 10 anos atrás) trabalho intensamente. 40 horas na saúde pública (que não é brinquedo não, quem trabalha sabe o quão puxado é) e sempre mais horas por fora, no consultório ou dando aulas. Fato é que já cheguei ao extremo de trabalhar manhãs, tarde, noite e por vezes aos finais de semana também, quando viajava para dar aulas em outra cidade. Esse ritmo puxado era visto com naturalidade por muitos colegas e até mesmo por mim. Se você trabalha muito você ganha dinheiro, é bem sucedido, é reconhecido.
Em meio a tudo isso eu ainda estudava! Sim, nunca consegui parar de estudar. Uma especialização aqui, um idioma acolá, uma atualização nova...o tempo não pára e eu não podia parar também!
Os anos foram passando e algo começou a me incomodar. Comecei a perceber que eu dedicava muito do meu tempo para qualquer outra coisa que não de fato para mim. Chegava em casa a noite, exausta depois de um dia cheio, e não sobrava tempo. Eu almejava em meus desejos delirantes por um dia de 30 horas tal como a propaganda de um banco que, diga-se de passagem, faliu. (acho). Até que eu percebi que vivia tal como o ratinho que corre para fazer a roda girar e nunca saía do lugar: não importava quantas horas meu dia teria, eu dedicaria todas ao trabalho e ao estudo.
Perdi momentos importantes da vida, com pessoas que amo, porque estava trabalhando. Lembrei-me do Zeca Baleiro, que em sua música bradava contra o patrão : "Ele roubava o que eu mais valia e eu não gosto de ladrão". 
E foi quando me senti "roubada" , tudo começou a mudar.
Primeiramente eu revi a minha relação com o dinheiro. Nunca tive uma vida muito consumista e sempre fui um tanto quanto desapegada de bens materiais. Vivo com muito pouco, esta é a verdade. Claro que tenho os meus luxos e desejos mas nada que me impeça de seguir a vida se, em algum momento, não puder ter aquilo que quero, de imediato. Sei lidar com frustrações e vazios. Pensei então que talvez eu não precisasse de todo o dinheiro que ganhava. dependendo do que e como eu consumisse. Rever minha relação de consumo foi a etapa mais gratificante do processo. Percebi o quanto eu as vezes caia nas armadilhas do mercado  e comprava algo mesmo sem precisar: "porque estava barato, porque eu poderia precisar um dia, porque é bonitinho...". Libertar-me desta imposição me fez um bem que não consigo descrever!
Outro ponto muito importante neste processo foi ter um parceiro. Meu marido sempre teve as mesmas ideias que eu e construímos tudo isto juntos. Foi ele quem me deu força para promover estas mudanças. Horas e horas de conversa sobre o mundo, sobre nós, sobre o consumo, sobre dinheiro, sobre as pessoas, sobre a vida. Elegemos nossas prioridades e decidimos que de 2015 em diante nossa vida será focada nelas.
Ontem refizemos nossa planilha de gastos e ajustamos algumas coisas. Vai dar certo!
Vamos continuar trabalhando (claro!), adoro trabalhar! Só que agora eu vou trabalhar e vou cozinhar, vou ver meus filmes, ler, ver mais os amigos, a família, cuidar das minhas plantas, ficar com meus gatos, caminhar, e tudo o mais aquilo que me fizer bem. Não vou mais viver para trabalhar. Vou é trabalhar para viver. 
Claro que os planos de longo prazo e as aquisições mais caras ficarão mais distantes. Mas e daí? Eu posso esperar. Meus desejos é que não podem.

(Escrito no primeiro de muitos dias em que almoço em casa, e como sem correr. Interrompido para que eu vá a cozinha passar um café e prosear com a moça que me ajuda a cuidar da casa). 

sábado, 6 de dezembro de 2014

4 horas *

Como dar aquilo que não se tem?

Pobre menina...a vida tem te cobrado muito, não é mesmo? Vem cá, deite-se em meu colo. Dedilharei meus dedos entre seus cabelos e todos os pensamentos ruins se afastarão. Vou cantar as mais belas cantigas de roda para embalar teu sono e contarei histórias de um tempo em que a vida era bela. Falarei sobre lendas e mistérios pouco conhecidos, você se supreenderá! Tenho certeza de que logo se verá como uma heroína dos contos de fadas ou como a princesa herdeira de um lindo castelo. Venha, venha...
Os dias tem sido difíceis, eu sei. Chegue mais perto, vou pentear seus cabelos e trançá-los com fitas coloridas, enquanto recito um poema. Você poderá admirar a beleza da lua e perceberá que tudo isso vai passar. Posso colocar em seu pescoço um belo colar, que ressaltará ainda mais a sua beleza.  Se for de seu agrado, posso dar-te brincos também, um delicado brinco de pérola. Posso colocá-los enquanto sussurro palavras bonitas em seu ouvido.

Não diga isso, não faça assim. Venha cá que eu lhe quero bem. Prometo que hoje vou só te ninar. Venha, já é madrugada, falaremos do resto amanhã, quando você acordar.  Durma, durma...

* - texto também encontrado em meu HD externo, escrito não faço ideia quando.



Devaneios capitais. *

Eu te quis desde o primeiro momento em que te vi.
Você corria contra o vento, seus cabelos estavam bagunçados, você vestia branco.
Eu tive vontade de correr atrás, mas sabia que não seria capaz de te alcançar.
Você gritava, chorava, ria, gargalhava, esbravejava.
Eu tentava captar seus sinais, entender o que você estava sentindo.
Você parecia não saber o caminho, atirava-se em qualquer direção.
Eu gritei: “É por ali!”. Tive medo de que você se perdesse.
Você não me ouviu. Te encontrei ao chão.
Eu pensei que você tivesse morrido. Te tomei em meus braços e me desesperei.

Você nada fez. Você nunca fazia nada. Você me escapava pelas mãos. Todos os dias, todas as horas.


* - texto escrito há muitos anos atrás, que encontrei "perdido" em meu HD externo.

domingo, 12 de outubro de 2014

Eu e meu assaltante.


Há poucos dias atrás sofri um assalto na rua em que moro. Estava voltando de uma caminhada, por volta das 18:30, com uma pequena bolsa, de onde saía um fone de ouvido. Eu ouvia música e andava de modo tranquilo, já desacelerando as passadas para chegar em casa. Eis que um rapaz aparentando 20 anos, magro, pardo (um pouco mais moreno do que eu), me abordou vindo por trás e posicionou-se ao meu lado, de modo a me “espremer” contra o muro. Disse: “vai andando, vai andando”. Custei a entender o que estava acontecendo, pensei ser algum conhecido e o olhei no rosto, buscando na memória esta identificação: traços finos, olhos castanhos, boné, casaco azul e cinza, calça comprida. Não, não o conhecia. Ele estava com as mãos no bolso e me mostrou rapidamente uma faca, que tornou a esconder depressa. Eu, já entendendo o que estava acontecendo, fui tomada por uma calma inexplicável para o momento.
 
E então páro e digo: “Calma, me diga o que você quer que eu entrego”.
 
“O celular”. Entrego, e ele me devolve o fone de ouvido. Pede dinheiro: tenho apenas 5 reais, troco da água de côco que tomei ao fim da caminhada. Ele pega o dinheiro, ordena que eu siga andando e desaparece, no sentido oposto.
Não me recordo do trajeto entre o local que fui assaltada e minha casa. Chego tremendo, sento-me no chão e choro. Muito. Quero ligar para o marido, mas não me lembro o telefone. Do fixo ligo para seu trabalho e peço que  venha logo. Com dificuldades ligo para a operadora para bloquear o número e erro meu próprio número diversas vezes. 

Tenho uma noite difícil: insone, assustada, com um cansaço e dor no corpo descomunal. Fico muito angustiada. Conto a algumas pessoas mais próximas o ocorrido e recebo as mais diversas formas de solidariedade. Muitos bradam contra o assaltante, desejam sua ruína e apelam para o reforço no policiamento do bairro.E eu, com meus pensamentos confusos, tive apenas uma única certeza: eu não tinha raiva dele. Tinha pena.
 
Pena porque vi os olhos deles tão assustados quanto o meu: porque imaginei que, depois do assalto, ele voltaria para uma vida que, provavelmente, era bem pior do que a minha. Pensei na criação que ele teria recebido, em que condições familiares teria crescido, que tipo de afeto lhe teria sido destinado. Pensei em todas as privações que este sujeito deve ter passado na vida e nas formas pelas quais acabou encontrando um meio de sobreviver num mundo que não passa a mão na cabeça de ninguém.

E então, depois da pena, senti culpa: culpa por estar do outro lado, por fazer parte de uma parcela da sociedade que frequentou boas escolas, teve uma família amorosa e uma educação humana muito forte. Nunca passei por grandes privações, sempre viajei nas férias e fiz curso de inglês e natação. E ele, com toda a certeza, não teria sido meu colega de classe. Fiquei pensando que eu gostaria de ter podido pedir desculpas a ele: desculpas por tanta desigualdade, tanta diferença, desculpas pelo abismo que nos separa.

Não estou simplesmente “defendendo bandido” ou dizendo que ele não deva pagar pelo crime que cometeu. Vivemos numa sociedade com regras e entendo que todos tenham sim que arcar com seus atos: só não consigo me enxergar apenas como a vítima indefesa e a ele como um bandido mau. Eu também posso ser a algoz ao me reconhecer do lado “mais forte” da sociedade e gozar disto e ele é também vítima de tudo isso, de um modelo de existência em que para sobreviver você tem que ter capital, não interessa como.
 
Ainda relembro a cena, diversas vezes e me sinto assustada, mas tudo isso me levou a uma certeza: eu e meu assaltante não somos tão diferentes assim. Somos vítimas e também algozes. Podemos até estar em lados distintos numa mesma sociedade, mas sofremos ambos as consequências dela. 
 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O que eu não fiz.

Neste final de semana estive em uma grande loja de departamentos  para comprar vasos, terra, adubo, plantas e ferramentas. Já há algum tempo nutro profundo amor pelo verde e planejava trocar algumas plantas de vaso aqui em casa. Saímos, eu e meu marido, num sábado quente para fazer tais compras. Loja cheia, mas como é bem grande, não havia um excesso de pessoas a ponto de incomodar.
Gastamos um bom tempo na seção de vasos. Escolhendo, analisando, pensando quantos precisaríamos de cada tamanho, as cores, etc. Vejo na ponta do corredor uma família engajada no movimento de tirar uma caixa grande de uma prateleira, que eu não fazia ideia do que seria. O “chefe” da família, um senhor grisalho de fala forte,  conduzia toda a ação. A retirada da caixa, no entanto, provocou um desequilíbrio em alguns vasos que estavam logo ao lado e, obviamente, todos foram ao chão.
Tudo bem, eram de plástico! Bastaria recolhê-los de volta ao lugar que tudo ficaria bem. Mas o enérgico senhor apenas olhou a cena e continuou conversando com seus familiares, com a caixa já nas mãos.
Não me aguentei. Por que será que ele não pegou os vasos que derrubou e os restaurou a antiga posição? Muito simples, pensei: porque ele está “pagando” e ali certamente tem um funcionário para fazer isso por ele.
Fui até o local, pedi: “me dá licença, por favor?”, e pus-me a recolher os vasos, um a um. O senhor não mostrou qualquer reação: seguia muito interessado em sua caixa, mas percebi claramente que entendeu o que havia acontecido.
Pois bem, família feliz dispersada, voltei para o lado do meu marido, que a esta hora escolhia adubo. Foi quando avistei, do outro lado, algumas suculentas. Fui até lá, mas no meio do caminho havia uma senhora que limpava o chão, com esses escovões enormes, que impedem a passagem. Fiquei parada, esperando-a terminar seu serviço, quando um jovem casal, mais impaciente do que eu, “pulou” a vassoura da mulher, esbarrando nela. ( o espaço era pouco). Consegui ouvi-la dizer, entre os dentes, bem baixinho: “passa por cima!”. Não parecia enfurecida, apenas triste. E seguiu sua limpeza, sem tirar os olhos do chão. (eu seria capaz de escrever um conto só sobre esta mulher...)
Fiquei com uma vontade enorme de brigar com o senhor dos vasos e de dar um abraço na moça da limpeza, e dizer: “ ei, eu tô te vendo, você não é invisível!”. Mas não fiz nada disso. Apenas parei para tomar um café , contei a história ao marido e voltamos para casa, reclamando do quão difícil é o mundo. E voltamos para o nosso mundo de plantas e outras coisas afetivas e apaziguadoras. 


(Aqui dentro de casa, o mundo é perfeito.)